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Luiz Carlos Merten

31 Outubro 2008 | 16h37

Tive médico, hoje pela manhã, e na seqüência, ao chegar ao jornal, tinha ‘montes’ de matérias para redigir. A entrevista com Benicio Del Toro, que fiz ontem; os filmes na TV; o resultado da Mostra. Tudo isso e ainda o horário na Rádio Eldorado. Não me sobrou tempo para o blog e daqui a pouco eu quero sair para a repescagem da Mostra. A conseqüência é que só agora vou postar o que alguns de vocês já devem ter lembrado. Completam-se hoje, 31 de outubro, 15 anos da morte de Federico Fellini. Mentiria se dissesse que Fellini é o top para mim. Sou muito mais Visconti, e ‘Rocco’, vocês sabem, mas Fellini com certeza foi um dos maiores – e um dos mais populares entre os grandes – autores do cinema. Seu nome terminou virando adjetivo, ‘felliniano’, que até quem não é cinéfilo de carteirinha usa para designar alguma coisa grandiosa, extravagante e por aí afora. Mas Fellini não era assim extravagante no começo de sua carreira. Ele começou neo-realista, como roteirista e ator. Ao estrear na direção, assinalou a transformação do realismo social em neo-realismo interior, voltado à indagação existencial (Antonioni foi ainda mais radical na tendência, com seu cinema da solidão e da incomunicabilidade da burguesia). Seus primneiros filmes, ‘Abismo de Um Sonho’, ‘Os Boas Vidas’, o próprio ‘La Strada’ (A Estrada da Vida) vão sendo invadidos pela fantasia e até pelo surreal, desde que Alberto Sordi, como o xeque branco, usou aquele balanço. Vieram depois ‘Noites de Cabíria’, com roteiro de Pier Paolo Pasolini, ‘A Doce Vida’ e ‘Oito e Meio’, que me parece o ápice do diretor. Com ‘La Dolce Vita’, Fellini explode a estrutura narrativa de seus filmes e a impressão é que vários episódios da ronda noturna de Marcello Mastroianni poderiam trocar de lugar no filme sem alterá-lo substancialmente. Isso é ainda mais evidente em ‘Satyricon’, ‘Roma’ e ‘Amarcord’. Não sou nem louco de dizer que não gosto desses filmes, porque seria mentira, mas me parece que Fellini, cada vez mais, foi ficando autoindulgente e virou gênero de si mesmo, olhando obsessivamente para o próprio umbigo. Lembro-me de uma polêmica entrevista do professor Gerd Bornheim, acho que para Enéas de Souza, na imprensa gaúcha, no começo dos anos 60, logo após ‘Otto e Mezzo’, em que ele assinalava (intuía?) que isso iria ocorrer. De qualquer maneira, Fellini, a mim pelo menos, voltou a surpreender com ‘E la Nave Va’ e ‘Ginger e Fred’. O primeiro faz do funeral daquela cantora lírica uma coisa muito mais abrangente e complexa do que só o enterro da Belle Époque. ‘Ginger e Fred’ me parece misantropo demais, mas é o único filme italiano dos anos 80 a retratar daquele jeito o que seria o controle de Silvio Berlusconi sobre a TV do país. Só não gosto mesmo é de ‘A Voz da Lua’ e, inclusive, quando o filme estreou, quase fui apedrejado por escrever que outro mestre, Akira Kurosawa, tinha conseguido ouvir muito mais a voz da lua, na cena em que a velha avó e seus netos sentam no alpendre e ficam olhando a Lua, em ‘Rapsódia de Agosto’. Nada é dito, mas para a gente – para mim – é como se o próprio filme falasse, naquele momento. Sou forçado a reconhecer, de qualquer maneira, que devo muito a Fellini. Muita gente – até Jean Tulard, em seu ‘Dicionário de Cinema’ – o opõe a Bergman, ambos marcados pelo cristianismo, um solar (o italiano), o outro envolto em brumas (o sueco). São tantas cenas de Fellini que carrego comigo… Com elas vêm os colaboradores – Marcello, Giulietta, Nino Rota. Não consigo pensar numa cena de Fellini sem que a imagem não venha acompanhada pela música. É interessante. Fellini, num certo sentido, virou um diretor tão conhecido quanto Alfred Hitchcock. Fellini sempre foi reconhecido como autor de arte. François Truffaut e Robin Wood precisaram escrever seus livros (‘Le Cinéma Selon Hitchcock’, ou ‘Hitchcock Truffaut’, e ‘Hitchcock’s Films’) para provar que o mestre comercial era um grande artista. Ambos eram marqueteiros e apareciam nos próprios filmes. E a parceria de ambos com seus compositores, Hitchcock e Bernard Herrman, Fellini e Nino Rota, faz parte da herança sagrada do cinema.