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Christensen, o estrangeiro

Luiz Carlos Merten

20 Junho 2009 | 11h51

RIO – Mais uma vez, pela procecência, vocês já sabem onde estou. Cheguei ontem no meio da tarde e já emendei com o objetivo da minha vida. O Cionesul está homenageando Carlos Hugo Christensen com uma retrospectiva. No ano passado, houve outra,m dedicada a Torre-Nilsson, na Cinemateca do MAM. Havia pouquíssima gente para ver TOrre-Nilsson em 2008 e, menos ainda, para Christensen, ontem. Vi o primeiro filme dele, ‘El Inglés de los Guesos’, dos anos 40, fortemente atado à estética da época, mas com ideias interessantes. Duas cenas em que o diretor parte de sombras projetadas na parede para ‘apanhar’ seus personagens (e depois voltar para elas). Algumas referências à vida no campo que voltarão em ‘A Intrusa’. Encontrei Francisco Marques, que o foi o faz-tudo de Christensen desde o começo dos anos 60 até a morte do cineasta, em 1999. Marques foi roteirista, assistente de direção etc. Ele recebeu de herança os direitos dos 11 filmes brasileiros do diretor. Cointou-me coisas interessantes. ‘Matemática zero, Amor 10’, que era considerado perdido, após incêndio num laboratóreio de Buenos Aires que destyruiu o negativo, foi localizado pela Cinemateca de São Paulo ´há cerca de três meses. Christensen filmou em diversos países da América Latina. A Argentina, onde nasceu, claro, mas também Chile, Peru, Venezuela e o Brasil, onde se fixou. Marques, de algumna forma, confirmou uma impressão que sempre tive. Christensen quis ser um cidadão da Amédrica Latinas e, talvez, do mundo, e não se fixou em lugar nenhum. No Rio, que amava, defendia a Argentina. Lá, seu assunto quase único era sempre o Brasil. Christensen buscava o apuro técnico – ganhou um prêmio de fotografia em Cannes por seu filme venezuelano, ‘La Calanda Isabel Llegó Esa Tarde’, e a fotografia em cores é a verdadeira intrusa do filme que leva este título, adaptado de Jorge Luis Borges – a história contida em ‘O Informe de Brodie’ -, no qual ele estetiza o que devia ser a barbárie da paisagem nas qual se inscreve a história dos meios (meio) incestuosos. Não creio que Christensen tenha sido um grande diretor. Há um artificialismo, uma frieza (glacial) que me incomodam em seu cinema e, ao mesmo tempo, respeito seu esforço de adaptador – ninguém fez tantas adaptações nem trabalhou tanto com escritores no País – e o amor pelo Rio, que ele colocou até nos títulos de seus filmes, ‘Esse Rio Que Eu Amo’, ‘Crônica da Cidade Amada’. Os últimos que fez são a síntese desse desgarramento. ‘A Intrusa’ transpõe Borges para o Rio Grande do Sul, onde foi filmado, mas o pampa – a pampa, como dizem os argentinos – é o mesmo/mesma; e ‘A Casa de Açúcar’ baseia-se em Silvina Ocampo. Curioso, isso. Quer fazer a popnte entre duas culturas, mostrar que o diálogo Argentina/Brasil era possível. Francisco Marques contou-me dos problemas de ‘A Casa de Açúcar’. O filme foi feito (filmado e montado), mas Christensen não teve dinheiro, nem tempo, para a finalização. Marques e alguns parceiros buscam recursos para contar a história derssa filmagem que, revelada, poderia se tornar mítica. ‘A Casa de Açúcar’ seria financiado pela Embrafilme, mas aí veio Collor, o celerado, que desmantelou a empresa (e a produção). Christensen viveu uma situação surreal. A empresa havia liberado a primeira parcela do financiamento, quando deixou de existir. Ele não recebeu as demais parcelas e devia para a União. Foi cobrado pelo que não recebeu. Seu apartamento foi hipotecado e a hipoteca venceu. É uma história que daria filme – e, um pouco, foi contada (não a de Christensen, especificamente) por Walter Salles e Daniela Thomas em ‘Terra Estrangeira’. Curioso – ao escrever oi nome do filme dei-me conta de que, lá e cá, Christensen talvez tenha sido sempre um estrangeiro nesse continente que amou, e cuja diversidade quis plasmar na tela.

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