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Choque de realidade

Luiz Carlos Merten

12 Fevereiro 2012 | 05h41

BERLIM – Tenho dez ou 15 minutos para acrescentar um post que me persegue, Hah uma cena de Outubro em que o proletario, carregando a bandeira da classe, vai parar no meio dos ricos e eh atacado pelas burguesas, que lhe cravam sem doh os saltos do sapato no peito. Fica ele caido como um martir da causa operaria. Sergei M. Eisenstein naoh cria personagens. Trabalha com tipos e arquetipos que representam ideias. A ideia que ele passa eh clara, mas propagandistica e ateh, por que naoh dizer, panfletaria. Em 1928, quando fez sua reconstituicaoh dos dez dias que abalaram o mundo, em 1917, Eisenstein jah vivia em guerra com o regime, mas sem deixar de acreditar na causa do socialismo. O comunismo que ele idealizava virou totalitario, criou o Gulag e, no limite, ruiu com o Muro de Berlim. Permanece a obra de Eisenstein como sua grande materializacaoh estetica, mesmo que o proprio filme seja imaterial. Naoh deixo de pensar nessas coisas todo dia em que sou obrigado, aqui em Berlim, a ir aa antiga parte Oriental, para algum filme ou entrevista. A Berlim moderna, dos predios arrojados, foi construida em Potdsmar Platz, na terra de ninguem em que se situava o muro. A antiga Berlim Oriental mantem sua arquitetura velha, de predios pesados. Mas hoje, o significado eh outro. As maiores marcas do mundo, as grifes mais caras, ocupam hoje esses predios. Mantiveram a forma, o volume pesado e sombrio, e esculpiram dentro deles o sonho (de consumo). A liberdade que resta hoje eh a de consumir, assim mesmo aquilo que a propaganda nos ensina a desejar. Muito vidro rasgando as paredes, luzes, cores. Carros de ultimo tipo, as novidades em eletronica, moda etc. Sempre penso que essa escolha do local eh simbolica, para representar a vitoria do capitalismo, da economia globalizada, sobre o comunismo. O sonho, derrotado (?) pela realidade, permanece vivo na obra de grandes artistas como Eisenstein. Outubro foi um choque para mim.