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Cultura » Choque de intensidades

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Luiz Carlos Merten

13 Agosto 2008 | 09h39

GRAMADO – Sou tão desligado que demorei alguns segundos para perceber que o Daniel Rezende que estava sendo chamado ao palco do Palácio dos Festivais, como diretor do curta ‘Blackout’, era o montador de ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Só quando o próprio Daniel passou pela minha poltrona é que percebi – é ele. Daniel fez um curta muito interessante, e muito bem montado, claro, sobre este caos que é a corrupta política brasileira. Aliás, essa idéia de que só a política brasileira é corrupta e nada disso ocorre nos outros países é uma fantasia das pessoas, alimentada por certa mídia que faz questão de frizar que, com a gente, é sempre pior. Outros países podem ter cidadãos mais conscientes e até organizados, mas quando você está na França, nos EUA, na Espanha, na Itália, até na Suécia, a coisa mais comum é o noticiário sobre políticos que estão sendo investigados por suspeita de corrupção. Talvez a diferença seja que eles, muitas vezes, no limite, sejam mesmo inculpados e a coisa não termine em pizza, como ocorre aqui tantas vezes, devido ao sentimento corporativo da classe. Achei interessante, como já disse, o curta do Daniel Rezende, com Wagner Moura, mas meu preferido, entre os curtas do primeiro dia, foi ‘Domingo à Noite’, de um diretor cujo nome não lembro – estou sem o catálogo do festival -, que adaptou um texto de Caio Fernando Abreu sobre solidão urbana. Por defeitos que tenha, o filme me pareceu muito bonito, e muito bem interpretado, inclusive pelo ator que divide a cena com Wagner Moura em ‘Blackout’ (e cujo nome, ó vergonha, também não lembro). Rodolfo Vaz, do ‘Salmo 91’, faz uma ponta como morador de rua e eu o reconheci do teatro. Foram exibidos mais dois curtas – ‘Espalhadas no Ar’, de Vera Egito, um nome mais fácil de guardar, uma delicada investigação do universo feminino, a partir de um grupo de adolescentes e uma dona de casa insatisfeita, sendo que essa última é uma atriz ótima, além de muito bonita. Fiquei o tempo todo pensando que Hermila Guedes poderia fazer o papel, mas que a atriz da Vera Egito também poderia ter feito ‘O Céu de Sueli’, de Karim Ainouz. O nome, qual é o nome? Aguardem… Houve mais um curta, ‘Hiato’, feito por estudantes da Escola Darcy Ribeiro, no Rio. É um documentário com imagens de arquivo e entrevistas com sem-teto que, em 2000, invadiram um shopping carioca, para expor as desigualdades sociais que transformam gente humilde – e eventualmente mal calçada e vestida – num caso de polícia nestes templos de consumo. Não me lembrava do episódio, se é que alguma vez tive registro dele, mas o formato do documentário me pareceu doloroso. As imagens de arquivo e os depoimentos dos envolvidos foram bons – muita coisa legal -, mas a fala dos ‘especialistas’ foi de lascar. Entraram uma professora falando do muro invisível – está bem, era Ivana Bentes, senão parece que é covardia minha não nominar -, e o Sílvio Tendler, outro que conheço, sapecando um ‘globaritarismo’, que eu imagino seja neologismo para falar da ditadura (o autoritarismo) da globalização. Até aí, tudo bem, ainda dava para agüientar, mas quando entrou o filósofo falando no choque de intensidades – foi isso, não? -, eu fiquei pensando, cá com meus botões, que posso não ter gostado de ‘Vingança’, do Paulo Pons, mas ele está absolutamente certo ao dizer, como disse, no debate, que um diretor não pode ter medo de cortar. Boa parte daquele material – a ‘acadêmica’ – poderia ter ido para o lixo sem prejuízo da compreensão da ‘mensagem’ (e o espectador ia ter de deduzir por si próprio). Vou misturar alhos com bugalhos, falando sobre o ‘sem medo de cortar’. Na entrevista que me deu, José Mojica Marins disse que cortou seqüências inteiras de ‘Encarnação do Demônio’, persuadido, pelo produtor e montador Paulo Sacramento, que isso seria melhor para o filme. Pelo visto não foi, pois me informaram ontem que ‘Encarnação’, com toda a mídia favorável que teve, fez míseros 6 mil espectadores no fim de semana. Gosto bastante do filme, mas não me surpreende, posto que ele é mais nojento do que assustador e isso deve desagradar à garotada dos shoppings, embora se ‘Encarnação’ fosse falado em inglês – ‘Encarnation of the Devil’? -, talvez o desempenho fosse melhor. Zé do Caixão, o personagem de Mojica, batizado como Coffin Joe, é sucesso em todo o mundo, menos aqui (agora). Quem sabe este público colonizado descobre o filme – se ele tiver uma acolhida favorável em Veneza? Quem sabe? Só agora me dou conta de que também estou dando minha versão do choque de intensidades…