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‘Chico Xavier’

Luiz Carlos Merten

24 Março 2010 | 15h53

Havia uma pateia de notáveis para assistir à première de ‘Chico Xavier’ em Paulínia. Casa cheia, 1350 lugares. Bruna Lombardi – ela me anunciou que começa a filmar em Paulínia dentro de duas semanas –, Regina Duarte etc. Daniel Filho, claro, e seu elenco – Nelson Xavier, Ângelo Antônio e o menino Mateus Costa (que fazem os Chicos). No final da sessão, passado da meia noite, acompanhei a equipe num restaurante em Campinas, onde Daniel me deu uma entrevista que entrou pela madrugada. Um dos bons reencontros da noite foi com o roteirista Marcos Bernstein, que adaptou o livro de Marcel Souto Mayor. Marcos me contou que ‘Meu Pé de Laranja Lima’ vai, enfim, desencantar. Desde que li o roteiro, integrando um júri de seleção da Petrobrás, há quantos? Três ou quatro anos?, me apaixonei pelo projeto. O livro de José Mauro de Vasconcelos já havia sido adaptado por Aurélio Teixeira, nos anos 1960, e não era o livro, em si, que me fascinava, mas a releitura do Marcos, que prometia um filme na vertente de ‘O Corvo Amarelo’, de Heinosuke Gosho. ‘O Corvo’, com admirável uso da cor – carrego comigo os amarelos e pretos de Gosho –, nunca foi uma referência para o Marcos, mas foi a ponte que fiz, na hora, ao ler seu roteiro. O filme vai sair, mais modesto, com menos efeitos. Torço para que dê certo. Marcos me disse que escreveu várias versões do roteiro de ‘Chico’ e Daniel Filho contou que fez também várias mudanças, inclusive, ou principalmente, de tom, na hora de filmar. A ideia de fazer da entrevista de Chico Xavier no ‘Pinga Fogo’ o eixo do relato foi do diretor. É um achado, bem como o fecho, com trechos da própria entrevista do médium. É muito interessante ver Chico contar episódios que vimos reproduzidos com Nelson Xavier e Ângelo Antônio. Chico é muito mais humorado e a maneira como ele conta sua ‘crise’ – e a discussão com Emmanuel (a quem chama de Emânuel) –, na cena do avião, quando tem medo de morrer, é irresistível. Mais ousado é outro momento do mesmo ‘Pinga Fogo’, quando Chico fala dos sentidos e inclui o sexo, defendendo, qual visionário, em plena ditadura, em 1971, a diversidade – aquilo é extraordinário e quem sacou a importância foi Olivia Byington, a mulher de Daniel, que acompanhou a entrevista comigo, e exortou o marido a botar aquilo no filme, porque era da maior relevância. Daniel Filho está cauteloso quanto ao sucesso. Diz que ‘Chico Xavier’ passa do milhão de espectadores, ‘talvez’ chegue a 1,5 milhão, mas ele não arrisca o estouro de bilheteria – que poderá ocorrer. O personagem é fascinante, intrigante, mesmo para quem não reza pela cartilha do espiritismo. Fico em dúvida se os evangélicos, mais até do que os católicos, não farão campanha contra ‘Chico Xavier’. Tolerância zero – tenho amigos(as) que são evangélicos e, à simples menção do filme, pedem que o espírito ‘baixe’ bem longe deles. Acho interessante que Daniel Filho fale de fé e permaneça ateu, o que não o impede de destacar a importância da pregação do amor de Chico Xavier, sua crença de que podemos ser melhores, como pessoas, e no limite creio que o tema constante ao longo do filme, a elaboração (e superação) da perda, pode fazer de ‘Chico Xavier’ um grande consolo para as plateias. Embora Daniel Filho advirta que nenhum filme pode dar conta de uma vida inteira, o dele, mesmo selecionando momentos e tomando liberdades com a cronologia, é fiel à essência do personagem. Ele conta que nunca se preparou tanto. Pesquisou extensamente, até os aspectos mais controvertidos – a sexualidade, a esquizofrenia, as acusações de fraude. Mais do que desmistificar, seu filme humaniza o médium por meio de detalhes como a peruca, que leva Chico a polemizar com o próprio Emmanuel. E algumas cenas são fortes – a morte (eutanásia?) do irmão, quando o médium precipita a desencarnação. A questão agora é – num ano em que os filmes brasileiros sobre os quais repousava a expectativa de grandes bilheterias (‘Lula’, ‘High School Musical’) vêm decepcionando, ‘Chico Xavier’ vai virar o jogo? A pressão é imensa, mas Daniel Filho vai conseguir (mais uma vez)?

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