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Luiz Carlos Merten

04 Outubro 2006 | 16h21

Vi ontem à noite o filme do Patrice Chéreau Gabrielle, que perseguia já há algum tempo. Tentei vê-lo depois de Cannes, no ano passado; de Berlim e Cannes, este ano, e nada. O filme me fugia. Gabrielle é impressionante. Chéreau é genial diretores de atores e, quando tem Isabelle Huppert e Pascal Greggory, bem, aí ele tem simplesmente os melhores atores à disposição. Gabrielle é uma adaptação de um dos livros menos conhecidos de Joseph Conrad. Conheço razoavelmente a obra dele e não havia lido O Retorno. É a história de um casal, por volta de 1900. O marido é o protótipo do homem bem sucedido. A mulher é seu complemento dentro de casa. A relação é fria. Um dia ele encontra a carta em que ela anuncia que está fugindo com outro. O cara se destrutura, mas a mulher volta. Cria-se o inferno conjugal. Nem Bergman consegue ser tão cruel. Chéreau já havia feito de Rainha Margot um filme viscontiano, no sentido de que ele dirigia sua câmera basicamente para o corpo dos atores, como fazia o Visconti na fase que o próprio Luchino chamava de antropomórfica. A câmera continua grudada nos atores de Chéreau. Isabelle Huppert, sempre glacial, tem momentos em que parece que vai implodir, tal a tensão que transmite e isso sem gritar, sem histeria. Um recurso é discutível – Chéreau escreve frases de efeito na tela, como se fossem gritadas pelos personagens num filme mudo. O que me impressionou mais foi o seguinte – a mobilidade da câmera é tão grande, o ritmo tão duro, tão inexorável que você não percebe os cortes e recebe Gabrielle como se fosse feito num só plano-seqüência. Gostar ou não gostar é o de menos. Gabrielle é uma porrada do Chéreau.

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