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Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2006 | 10h16

Cheguei agora de manhã de Londres e, mal o carro que me apanhou no aeroporto chegou à Marginal, senti que havia caído na real. Foi-se a imagem, de cartão postal da calha reconstituída do Tietê. Durou pouco, o tempo de uma banda e de uma foto festivas. Não sou especialista, mas não adianta limpar o rio e reconstituir a calha (sei lá se é este o termo) , se não houver uma política para a preservação do rio. É dinheiro jogado, literalmente, n’água. Estavam lá, boiando, aquelas toneladas de espuma, que até fazem um efeito plástico bonito, mas são a prova viva da poluição. O rio não tem salvação se as indústrias continuarem jogando poluentes. O caso teria me impressionado de qualquer maneira, mas confesso que a indignação foi alimentada pelos três dias decisivos que passei em Londres. Não sou do tipo de idealizar o Primeiro Mundo, mas a Inglaterra virou um país em transe e o cinema ainda não deu conta disso. Você liga a TV e existem dois tipos de programas – baixarias de celebridades e Guerra do Iraque. O divórcio de Paul McCartney, a polêmica sobre se ele bateu ou não na mulher, rendem horas de programação, mas há um debate muito mais intenso. É a presença britânica no Iraque. Bombas, atentados, corpos destroçados, mortes. O que se vê é horrível e entra o general fulano de tal para dizer que não existe futuro, quer dizer, solução à vista. Foi apresentada uma pesquisa (de um instituto ligado à família Bush), segundo a qual já morreram entre 330 mil e 900 mil pessoas, a maioria civis, claro, desde o início da guerra. É uma diferemnça e tanto, mas os números confiáveis estimam os mortos em 550 mil. Só de soldados americanos morreram de segunda a sexta passada, 13. O próprio George W. Bush comparou pela primeira vez o Iraque ao Vietnã na semana passada, dizendo que os combates adquiriram uma tal intensidade que sugerem um novo Tet. Quando isso ocorreu, nos anos 60, houve uma virada da opinião pública americana em relação à guerra e começaram os protestos. O próprio Bush deve ter sido cobrado pelos aliados, porque aí houve um jantar de arrecadação de fundos para as eleições e ele garantiu que só existe um caminho para os EUA no Iraque – a vitória. O que a calha do Tietê tem a ver com a ofensiva americana no Iraque? Uma das tantas personalidades entrevistadas peka TV inglesa lembrou que a re construção do Iraque é uma farsa e o que se assiste é a destruição sistemática do país. Acrescentou que isso desequilibra o meio-ambiente e que os crimes contra o meio-ambiente deveriam, ser considerados crimes contra a humanidade e punidos como tal. Já pensaram? Lançar poluentes no Tietê virar crime contra a humanidade? É mais complicado do que limpar o rio e começar a poluir de novo…

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