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Luiz Carlos Merten

15 Dezembro 2007 | 23h23

Não fui a Brasilia, voces sabem, e estava morrendo de vontade de assistir a ‘Chega de Sadade, que valeu a Laís Bodanzky o Candango de melhor direção. Até escrevi, antes de ver o filme, que o júri teria se equivocado ao lotear os prêmios, dando a ‘Cleópatra’ o prêmio de mehor filme e a Laís, o de melhor direção. Não sei se o júri fez a coisa certa premiando a Cleópatra de Bressane, mas o prêmio de melhor direção foi muito bem atribuído. Vocês sabem que eu adoro a Laís e seu marido (e roteirista), Luiz Bolognesi. Devo aos dois a emoção que me produziu ‘Bicho de Sete Cabeças, que continua sendo o filme do meu coração na Retomada, por mais que goste de outros. En passant, andei escutando que os coleguinhas criticaram ‘Chega de Saudade’ porque o filme seria… Como é mesmo? Tradicional, convencional? Há mais ousadia na mise-en-scène de ‘Chega de Saudade’ do que em muito filme dito ousado. Vamos deixar claro – se ousadia é o Lynch fazendo gênero de si mesmo em ‘Império dos Sonhos’, agradeço. Fala-se pouco em ‘Chega de Saudade’, o filme de dança da Laís, e na maioria das vezes – embora algumas frases sejam profundas – o que as pessoas dzem nem é o mais importante. Eles secretam suas emoções e o diretora filma isso por meio de gestos, olhares, detalhes, que é a forma como eles (os personagens) se revelam. É um filme sobre o tempo, sobre a fragilidade humana. É ‘O Baile’ de Laís Bodanzky? Ela própria, me contou Flávia Guerra, disse que, em matéria de Ettore Scola, sua referência foi outra, ‘O Jantar’. Tem um motivo, mas isso é coisa para falar só depois da estréia. O filme é espetacularmente interpretado, montando (por Paulo Sacramento) e tem uma trilha de louco, com clássicos da MPB (e clássicos bregas) que muitas vezes comentam ou completam o que o comportamento dos personagens deixa subentendido. Tudo isso já foi muito legal, mas houve mais. Vi o filme no Cinemark Santa Cruz numa sessão para o elenco de apoio, todos aqueles dançarinos que a Laís teve à sua disposição durante, sei lá, cinco semanas. Não são atores. São pessoas que dançam e esse universo da dança de salão é uma coisa muito especial. Ali na Galeria Olido tem um salão de danças. Às vezes passo ali e fico olhando porque me encanta. Todo mundo dança – jovens e velhos, sem nenhuma discriminação (de cor, idade, raça, nem mesmo a barreira social). A dança dá àquelas pessoas uma identidade, uma cidadania. Elas se preparam para aquele momento como outras vão à igreja. É impressionante. Laís Bodanzky captou isso em ‘Chega de Saudade’. E os atores… É até injustiça querer destacar um ou outro, mas eu destaco. Tônia Carrero, Leo Villar, Betty Faria (tão constrangedora em ‘Bens Confiscados’),são todos (e todas) ótimos, mas Cássia Kiss e Stepan Nercessian estão demais e os jovens, Paulo Vilhena e Maria Flor, também seguram a onda representando com atores muito mais veteranos (e descolados) que eles. Disse que o filme é sobre o tempo, a fragilidade humana, sobre a dança como afirmação da vida (diante da morte inevitável), mas há nisso uma força extraordinária. Paulinho Vilhena bate em Stepan Nercessian e, no final, é como se ele tivesse apanhado. Como e por que? Vejam para saber. Em março, num cinema perto de você. Preparem-se. Vou fazer muita propaganda do filme aqui no blog. E, ah, sim, o CD, informou a Laís, já está à venda nas Americanas. Aquele close na boca da Elsa Soares – “Não deixa o samba morrer…” – me arrebentou. Muito legal.