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Luiz Carlos Merten

22 Maio 2008 | 06h54

CANNES – Ontem à noite foi o dia do ‘Che’, de Soderbergh. A sessão de imprensa, muito concorrida, ocorreu às 18h30. O filme tem 4h30 de duração, com direito a intervalo. Terminou quase 23h30. Hoje ocorre a sessão de gala, o tapete vermelho. Sempre me impressionou muito que Soderbergh tenha conseguido fazer seu filme falado em espanhol. Confesso que não li nada a respeito, mas de cara deu para ver por quê. A produção é da Warner França. Se fosse a matriz norte-americana, como na série ‘Onze Homens’ (e depois ‘Doze’ e ‘Treze’), ele não teria conseguido. Nada a ver, claro, mas o filme me lembrou as duas trilogias da série ‘Star Wars’. A primeira, cronologicamente anterior à segunda – na linha de tempo dos filmes -, é melhor do que a primeira pelo simples fato de que George Lucas conta a gênese do herói (na outra, é a do vilão). A primeira parte de ‘Che’ é épica. Conta a campanha em Sierra Maestra e termina a caminho de Havana, sendo entremeada de flashes sobre a ida do Che à ONU e seus encontros com artistas e intelectuais norte-americanos para promover a revolução cubana. A primeira parte é para cima, portanto. A segunda concentra-se nos 300 e poucos dias na Bolívia e é a história do fracasso. Apesar das quase cinco horas, os filmes não cansa – e a Warner França providenciou sanduíches e água para centenas de jornalistas, durante o intervalo. Mas a segunda parte, principalmente, me pareceu muito ‘burocrática’ como cinema. Como se conta a história de um fracasso? Que lições podem ser tiradas daí? Não entendi muito bem o ponto porque esta segunda parte não polemiza nem traz grandes novidades. O próprio Che faz sua autocrítica e aceita tranqüilamente o fracasso, que credita aos próprios erros. Não é o mito, mas o homem – cada vez mais fragilizado pela asma – que Soderbergh filma na segunda parte. O diálogo com um soldado boliviano e algumas observações sobre a falta de apoio dos camponeses bolivianos, ao contrário da população de Cuba, abrem a porta para uma análise, digamos, histórica. O filme é anticlimático, mas termina com um plano meio enigmático, muito interessante (que eu não vou descrever porque senão vocês me matam). Confesso que fiquei desconcertado com o ‘Che’ de Soderbergh. Não sabia que filme ia ver, não fazia idéia do recorte que o cineasta ia adotar, mas o que vi não me satisfez. Benicio Del Toro impressiona no papel, mas confesso que, no limite, fiquei pensando mais no velho ‘Che’ de Richard Fleischer, que no Brasil se chamou ‘Causa Perdida’. Fleischer foi um grande diretor subestimado e aquele foi o filme que o transformou em saco-de-pancada da esquerda. Era preciso coragem para fazer um filme no calor da hora – a produção é de quando, 1969 ou 70? Lembro-me que Fleischer acusava a Fox de haver remontado (e destruído) o filme. Seu roteirista, não-sei-o-quê Wilson, era um homem esquerda, que havia sido vítima do macarthismo. Posso estar romantizando, mas li em alguma pqarte, há muitos anos, que ele ficou tão amargurado com o fracasso do seu ‘Che’ que morreu, em seguida, do coração ou se matou (acho que estou exagerando). O filme antigo simplificava a falta de apoio dos camponeses ao Che. José Martinez de Hoyos era o ator que personificava todos eles. Lhe era perguntado – não me lembro se pelo militar ou por algum jornalista -, se ele sabia quem era aquele homem que delatou e ele dava uma resposta muito simples. Dizia que a presença de militares nas montanhas e as trocas de tiros assustavam suas cabras, que deixavam de produzir leite. Muita gente ridicularizou o filme por isso, mas Soderbergh, 40 anos depois, não avança muito na interpretação dos fatos. No final, ele acena para uma futura conscientização dos indígenas bolivianos (com Evo Morales?). `Che` não é ruim – a primeira párte é boa, até como relato de ação e as duas passam uma impressão de documentário reconstituído. É preciso reconhecer que se trata de uma história difícil de ser contada. Difícil, mas não impossível – lembrem-se do que Marco Bellochhio fez com o caso Aldo Moro em ‘Bom-Dia, Noite’. O grande problema deste Che é a sua falta de paixão, como se Soderbergh estivesse fazendo seu filme sem querer tomar partido.

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