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Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2009 | 13h27

PARIS – Não me lembro agora quem falou mal de ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’, queixando-se de que o filme de David Fincher com Brad Pitt segue o receituário de como fazer um filme para o Oscar, mas sem alma. Ave, Maria! Eu tive uma epifania assistindo a ‘Benjamin Button’, prova de que o filme, para mim, não apenas tem alma, como me seduziu e arrastou numa viagem de puro encantamento. Havia anunciado que ia ver ‘The Night of the Hunter’, La Nuit du Chasseur, de Charles Laughton. No ano passado, o filme havia sido tema de vários posts, um pouco pelo estranhamento produzido pela notícia de que havia sido selecionado, aqui na França, como o mais belo filme do mundo, derrotando os favoritos de sempre, ‘Cidadão Kane’ e ‘O Encouraçado Potemkin’. Fazia muito tempo que não revia ‘O Mensageiro do Diabo’ (obrigado pela informação sobre o título brasileiro). É um filme mágico, um conto de fadas perverso sobre duas crianças que fogem desse falso pregador interpretado por Robert Mitchum, na verdade um criminoso que matou a mãe delas e agora quer arrancar da dupla, na marra, o segredo de onde o pai escondeu a fortuna que roubou (e levou à sua condenação à morte). Lembrava-me da fotografia em preto-e-branco de Stanley Cortez – um gênio – e, especialmente, da fuga das crianças à noite, de barco, quando elas seguem pelo rio e adormecem, num clima de sonho do qual participam as estrelas e os animais da floresta. Rever o filme reafirmou uma velha impressão minha – Steven Spielberg com certeza viu este filme. O clima é o mesmo das cenas da floresta em ‘E.T. – O Extraterrestre’, mas o clássico de Charles Laughton é ainda melhor. Foi o único filme realizado por esse grande ator de Alexander Korda (‘Os Amores de Henrique VIII’), William Dieterle (‘O Corcunda de Notre Dame’), Stanley Kubrick (‘Spartacus’) e Otto Preminger (‘Tempestade sopbre Washington’). Feíssimo – parecia um ogro -, Laughton é a prova de que não é preciso beleza física para ser sedutor. Casado com a atriz Elsa Lanchester, a noiva de Frsnkenstein, e notoriamente bissexual, ele era famoso na velha Hollywood por viver cercado de efebos. Eu tinha uma amiga, que infelizmente já morreu, a Isabel, que me disse certa vez, para meu espanto – éramos jovens em Porto Alegre, e havíamos acabado de assistir ao clássico de William Dieterle -, que Charles Laughton era o homem mais bonito do mundo e que ela não trocaria o Quasímodo dele pelo Alain Delon, no auge da popularidade no começo dos anos 60.

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