Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » chacun Son Cinéma

Cultura

Luiz Carlos Merten

20 Maio 2007 | 09h32

CANNES – Se você é cinéfilo, jure que nunca quis matar os espectadores que não respeitam o espaço sagrado da sala de cinema e o molestam con seus ruídos e observações inconvenientes. Lars Voin Trier realiza, na ficção, esse seu desejo no episódio que fez para Chacun Son Cinéma. Exatamente 33 autores de cinema de todo o mundo foram convidados pelo presidente do Festival de Cannes – e ex-diretor artístico do evento -, Gilles Jacob, para celebrar, com um episódio de três minutos cada, o maior evento de cinema do planeta. Com exceção de Lars, vieram todos para a coletiva, após a exibição do filme para a imprensa, agora de manhã. Só Cannes (e Gilles Jacob ) para reunir tantos autores de diferentes idades e nacionalidades, de Walter Salles e Atom Egoyan a Manoel de Oliveira e Theo Angelopoulos, passando pelos irmãos Coen e Dardenne e muitos outros. A coletiva não foi lá essas coisas. Dispersa entre tantos autores, virou uma coisa meio aleatória, mas Roman Polanski, que a monopolizou, tentando responder sobre tudo, exageropu ao perder a paciência. Chamando os jornalidstas de burros – imbecilizados pela internet -, ele rodou a baiana, ofendeu a platéia (e os colegas) e foi embora. Passados 30 segundos de constrangimento, a entrevista continuou (e ninguém foi atrás de Polanski, que talvez não tenha conseguido criar o caso que gostaria). Ele não deixa de ter razão, certa razão, pelo menos. Fazem-se muitas perguntas cretinas e até embaraçosas nesses grandes foros. Mas, enfim, com algumas exceções, achei o nível de Chacun Son Cinéma surpreendentemente bom, considerando-se a heterogeneidade do grupo reunido por Gilles Jacob. Os episódios de Polanski e Ken Loach são duas piadas divertidas – um sujeito, que seria morto por Lars Von Trier, molesta com seus gemidos o casal maduro que quer assistir ao pornosoft Emmanuelle, de Just Jaeckin, com Sylvia Kristel, e um pai e um filho hesitam sobre o filme que querem ver na fila do cinema. Gostei muito dos de Manoel de Oliveira e Theo Angelopoulos – no qual o camarada Kruschev encontra o camarada papa João XXIII e Jeanne Moreau diasloga com o fantasma de Marcello Mastroianni,numa cena de O Apicultor, do próprio Angelopoulos. Mas o mais aplaudido pelo público foi o de Walter Salles, que filma uma embolada da dupla Castanha e Caju, que Waltinho já trouxe á Croisette anos atrás, acho que em 2002. No começo, eles estão num cinema distante 8 mil km de Cannes. O filme anunciado é Os 400 Coups, o que motiva um comentário do tipo ‘Que filme é esse, compadre? Pornográfico?’ Segue-se uma improvisação maravilhosa sobre o festival e seus premiados. Waltinho me disse que a improvisação foi da dupla. Ele não lhes passou nada. Tudo o que dizem, Castanha e Caju absorveram de sua experiência, há dois ou três anos, ao participçar do evento Brasil na França. A grande piada fica para o fim. Relaciona Gilberto Gil, o ministro da Cultura, com o outro Gil, o Jacob. Waltinho estava feliz da vida. Cinema, para ele, se faz em equipe, para ver em grupo. Ele não é do tipo que queira ver filme no celular nem na internet. Para as concepções dos jovens de hoje, já está virando um dinossauro. Mas Waltinho está certo. O impacto de seu episódio nunca será o mesmo, visto por um espectador solitário. Adorei Castanha e Caju em Chacun Son Cinéma e vou torcer para que demore mais um pouco até que o cinema troque a tela grande e o escurinho das salas pelos novos suportes.