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Luiz Carlos Merten

09 Janeiro 2009 | 23h23

Luciano tem toda razão. Nada como uma paulada nos Coen para revitalizar o blog – 76 comentários a favor e contra. Nada mau. Mas estou muito mais interessado agora num e-mail que recebi do Marcus, da Sala P.F. Gastal, um espaço da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, localizado na Usina do Gasômetro, na margem do Guaíba. A propósito dos posts sobre Buñuel, Marcus me anuncia a existência, que não conhecia, de um filme intitulado ‘Little Ashes’, que conta justamente a história da amizade do trio de jovens formado por Buñuel, Salvador Dalí e Federico García Lorca. Marcus acrescenta que Rober Pattinson – é com N ou só Pattison? -, o vampiro de ‘Crepúsculo’, é quem faz Dalí. Pegando carona em outro post, aquele em que falei das cores de ‘Quem Matou Leda?’, um Chabrol de 1959, citando a cena do campo de papoulas como uma imagem que permanece na minha retina, quase 50 anos depois – devo ter visto o filme em 1961 ou 62, por aí -, Marcus me informa que a Silver Screen lançou dois filmes do grande diretor francês, um dos últimos sobreviventes da nouvelle vague. Um deles é ‘Quem Matou Leda?’, que, apesar das cores, não é um grande Chabrol e outro é simplesmente a obra-prima do artista – ‘O Açougueiro’ (Le Boucher), de 1970, que surgiu na sequência de ‘A Mulher Infiel’ e ‘A Besta Deve Morrer’. Esses três filmes representam o apogeu da arte de Chabrol, mas meu favorito é ‘O Açougueiro’, com Stéphane Audran, na época mulher do diretor, como professora de província que se envolve com o personagem-título, interpretado por Jean Yanne. Na cidade, crianças estão sendo misteriosamente seqüestradas e assassinadas. A professora liga-se ao solitário açougueiro e descobre… Bem, vejam o filme, agora que está disponível em DVD. Embora ‘A Besta Deve Morrer’, adaptado de um romance policial de Nicholas Blake, e ‘O Açougueiro’ sejam filmes de suspense – e Chabrol até hoje seja devoto de Alfred Hitchcock -, o grande fastasma desses filmes é o de Fritz Lang, o grande mestre do expressionismo alemão. Com todo o seu classicismo formal, o tema languiano do destino trágico ao qual o homem não pode fugir percorre e dá sentido a boa parte da obra de Chabrol, e a ‘Le Boucher’, especialmente. A cena final, do diálogo entre Stéphane e Yanne, é de um romantismo mórbido – e uma beleza – que me parecem arrasadores. Quando os críticos comparam Chabrol a Balzac, dizendo que o diretor criou uma comédia humana por meio de cenas da vida burguesa de província, é este trio de (grandes) filmes que primeiro vem à lembrança. A burguesia provinciana, segundo Chabrol, não é apenas mesquinha ou medíocre. Ela abriga monstros cuja verdadeira natureza tende a ficar escondida e até impune, mas cujo instinto primitivo e destruidor sempre termina por aparecer. ‘A Mulher Infiel’ e ‘O Açougueiro’ eu ainda revi há um par de anos. ‘A Besta’ devo ter visto só na época e gostaria muito de rever. É a história de um pai obcecado por vingança contra o monstro que matou seu filho. Não me esqueço do final de ‘La Femme Infidèle’, depois que Hélène (Stéphane Audran) descbre que o marido (Michel Bouquet) matou seu amante. Dividida entre a paixão e a sua necessidade do casamento como estabilidade emocional, ela toma uma atitude que vocês deveriam ver, para entender, mas a força da cena vem do estilo de filmar, um movimento de câmera que combina travelling e zoom que avançam e recuam, produzindo um achatamento da imagem. O recurso, que Hitchcock desenvolveu na célebre cena da torre em ‘Um Corpo Que Cai’, para expressar a vertigem de Scottie (James Stewart), foi retomado, coincidentemente, na mesma época, por Chabrol e Arthur Penn nos finais de ‘A Mulher Infiel’ e ‘Alice’s Restaurant’/Deixem-nos Viver), sem que um soubesse o que o outro estava fazendo. Mais recentemente, Wim Wenders voltou a usá-lo na cena da estrada, para comprimir e estender a imagem de Sam Shepard dentro do carro em ‘A Estrela Solitária’. Quem foi que matou a charada? A gente discutindo aqui os Coen, quando um Resnais os reduz à sua insignificância. Não apenas Resnais, Chabrol também. Vejam ‘O Açougueiro’ e me digam depois se não é um grande filme.