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Luiz Carlos Merten

12 Setembro 2010 | 12h32

Estou aqui na redação do Estado. Cheguei para fazer os filmes na TV de amanhã e esperava ter tempo de acrescentar um post sobre a sensação de chegar aos 65 anos (hoje!). Tecnicamente, sou um ancião, mas não me sinto assim, embora anote as mudanças no meu corpo e não seja do tipo que vá píntar cabelos ou aplicar botox para disfarçar a idade. Eu hein? Gosto muito das minhas cãs. Queria escrever também sobre os curtas do Cinefantasy que vi ontem – me diverti bastante com o pasticho de spaghetti western de ‘Dead Bones’ – e também sobre o Almodóvar que revi, ao chegar em casa, depois de jantar com minha filha e genro. Era o ‘Fale com Ela’. Puta filme bom. Não esperava chegar aqui e descobrir que Claude Chabrol morreu. Hoje, dia do meu aniversário, aos 80 anos. Com essa não contava. Cá estou redigindo o necrológio de Chabrol e ameaçado de chegar tarde na própria festa, que começa daqui a pouco – não dispenso uma comemoração. Mas ele merece, o gordo Claude. Entrevistei-o quatro vezes, e ele foi sempre legal. Humorado, inteligente, uma relíquia da nouvelle vague, à qual sobreviveu, como Eric Rohmer, que morreu em janeiro (e era dez anos mais velho). Chabrol fez história nos primórdios do movimento, com seus dois primeiros longas, ‘Nas Garras do Vício’ e ‘Os Primos’. Mas sua melhor fase, para mim, foi o biênio 1969/70, quando fez ‘A Mulher Infiel’, ‘A Besta Deve Morrer’, ‘O Açougueiro’ e ‘Trágica Separação’. Stéphane Audran e Michel Bouquet são geniais no primeiro, ela é sublime em ‘O Açougueiro’ e eu não me esqueço de Michel Duchaussoy que caça a besta, Jean Yanne, o açougueiro, que matou seu filho num acidente de carro. As cenas iniciais de ‘Que la Bête Meurre’, aquela montagem em paralelo, só não são a melhor coisa que Chabrol fez porque ‘O Açougueiro’, sua obra-prima, é um dos filmes mais deslumbrantes já feitos. Jovens, ainda, na fase pré-cineastas, Chabrol e François Truffaut entrevistaram Alfred Hitchcock para ‘Cahiers du Cinéma’, no set de ‘Ladrão de Casaca’. Ambos eram fãs do mestre do suspense, ambos adoravam o gênero policial. Mas, enquanto os policiais de Truffaut são hitchcockianos, os de Chabrol são langianos – de Fritz Lang, com quem compartilhava o conceito do destino inflexível e trágico de personagens como o ‘boucher’. Chabrol era gourmet e tinha fama de preguiçoso. Imaginem se não fosse ‘lerdo’… O cara fez cerca de 60 filmes. Mais despachado, teria feito 100. Teve grandes parcerias (Isabelle Huppert, Stéphane, com quem foi casado, Jean-Claude Brialy, Michel Bouquet, a quem ofereceu belíssimos papeis). Vários livros foram escritos sobre Chabrol. Me arrependo de não haver comprado acho que o mais recente. Um livro sobre a gastronomia em Chabrol, na arte e na vida. Crítico ácido da burguesia interiorana, ele me disse certa vez que escolhia suas locações com base na proximidade de bons restaurantes regionais. Filmar e comer bem eram seus prazeres. O meu era assistir a seus grandes filmes.