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Luiz Carlos Merten

27 Julho 2011 | 09h26

Por onde começo? Na segunda à noite diz a mediação de um debate sobre o novo filme de Eliane Caffé. O filme, na verdade, é uma realização da oficina que ela ministrou em Alcântara, no Maranhão. ‘Céu sem Eternidade’ dá voz aos integrantes do Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara, o Mabe. Sabia da base e dos sucessivos fracassos do programa espacial brasileiro – três tentativas de lançamentos de foguetes, nenhuma deu certo e numa delas houve uma explosão que matou mais de 20 pessoas. A base foi instalada na área onde, há de 300 anos, moram integrantes de uma comunidade de quilombolas. O filme é sobre o embate entre tradição e modernidade. Foi feito pelos garotos da região, munidos de câmera. Eliane fez a montagem. Achei o filme muito bonito, muito rico e complexo na sua aparente simplicidade. Achei que estava indo para o debate de um filme do qual gostara. A coisa foi um pouco mais ampla. Lá estavam o presidente do programa espacial brasileiro, o ex-ministro da Ciêdncia e Tecnologia, o antropólogo que fez o laudo garantindo o certificado de território étnico para as comunidades quilombolas de Alcântara e o coordenador-geral do Mabe. Foi um debate essencialmente político envolvendo direitos dos quilombolas e o programa espacial do Brasil. O gancho foi, claro, o filme, e eu gostaria muito que ‘Céu sem Eternidade’ tivesse uma sobrevida além desse circuito mais alternativo. Lili Caffé disse que o filme tem sido pedido por associações, que as cópias se multiplicam e o importante é mesmo debater. Legal – mas esse tipo de debate não privilegia as qualidades cinematográficas de ‘Céu sem Eternidade’ e, honestamente, elas me parecem melhor do que muito filme ‘de arte’ que nos empurram – me empurram – goela abaixo. O evento começou às 8 da noite, prolongou-se até quase meia-noite e eu saí com a cabeça borbulhando de ideias, por conta daquele belo final. Os garotos oferecem um telescópio para que os velhos integrantes da comunidade vejam a Lua com outros olhos que não o da lenda e da tradição. Eles procuram pelo dragão de São Jorge, encontram as crateras e ficam tecendo histórias, porque o bacana é justamente a expressão dessa oralidade ancestral e a sua reinvenção. Adorei, fui jantar e, pela manhã, assisti a ‘Capitão América’. Nada mais diferente do que a nova fantasia da Marvel, dirigida por Joe Johnston. Leia o próximo post, daqui a pouco.