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Luiz Carlos Merten

13 Julho 2007 | 09h58

Vamos por partes, como diria o estripador. Fábio Negro, foi o Fábio, não?, viu Céu e Inferno, de Akira Kurosawa, e reformulou todos os seus conceitos de cinema. Eu também gosto demais do filme, a que assisti em Porto Alegre, no começo dos anos 60 – Fábio não devia nem ser nascido –, tenho certeza que na época do carnaval. Em Porto, havia uma grande sala, o Cacique, que, por vários anos, durante o carnaval, realizava um Festival do Toho, quando o cinema japonês era forte no Brasil. Foi lá que assisti a Rebelião, do Kobayashi, que produziu um dos maiores choques que tive na minha vida, vendo um filme. Mas eu dei uma parada no post e vim ao Dicionário de Cinema do Tulard para checar uma coisa. Kurosawa já havia feito Rashomon e Os Sete Samurais, mas há uma fase dele que me encanta e que começou em 1957, com Trono Manchado de Sangue, uma adaptação de Shakespeare. É o Macbeth de Kurosawa e tem aquela cena impressionante em que Toshiro Mifune avança por um corredor com o corpo crivado de flechas. Ele avança, as flechas aumentam, perfurando mais e mais seu corpo, e Mifune não cai. Na seqüência, Kurosawa fez um Gorki (Ralé), voltou ao filme de sabre (A Fortaleza Escondida), engrenou com um estudo da corrupção da sociedade contemporânea (Homem mau Dorme Bem), fez o mais belo de seus filmes de samurais – perdoem-me, mas, para mim, ninguém tira esse título de Yojimbo, que teve até uma seqüência, Sanjuro –, e aí, sim, em 1963 (chequei a data), chegou a Céu e Inferno, outro drama contemporâneo, ao qual se seguiu O Barbra Rubra. Foi o último filme de Kurosawa com Mifune. Os dois romperam por um desentendimento durante a filmagem. Kurosawa era um grande artista, era gênio, mas se há uma coisa que nunca conseguiu ser foi democrático no set. Não por acaso, ele era chamado de Imperador. Mifune devia saber disso, já que haviam trabalhado tantas vezes juntos, mas o personagem do médico de Barbra Rubra devia ser muito importante para o ator, que queria interpretá-lo de um jeito. Kurosawa começou a se irritar e ambos brigaram, e romperam. Foi uma das grandes parcerias da história do cinema e, na época, a gente ainda não sabia, mas já havia começado outra – a de Kurosawa com Tatsuya Nakadai, o ator mítico de Kobayashi, que prosseguiria na fase final do grande diretor, com os filmes-monumentos que são Kagemusha e Ran. Kurosawa sempre foi acusado, no Japão, de ser ‘ocidentalizado’. Era outra época, o mundo ainda não estava globalizado e Kurosawa adaptava Shakespeare, Dostoievski e Gorki. Os críticos reclamavam que sua noção de movimento era hollywoodiana e, de verdade, vários de seus filmes puderam ser vertidos para o cinema americano (e um até virou spaghetti western de Sergio Leone). Acho que só quando ele morreu os críticos se deram conta, nos necrológios, de que Kurosawa havia sido o grande mestre do paradoxo e do movimento. Em Céu e Inferno, ele se baseou num relato policial do americano Ed McBain, sobre empresário que pensa que o filho foi seqüestrado, mas foi o filho do seu motorista. E, agora, ele paga o resgate? Se pagar, estará arruinado; se não pagar, como seguirá vivendo, já que é um homem ético? Como em Yojimbo e Sanjuro, Kurosawa opõe Mifune e Nakadai, dois monstros da arte da representação. Alguma coisa já estava se passando, ali. Mifune criava um tipo de personagem sólido – uma matriz de homem para Kurosawa, como John Wayne para John Ford – e o cineasta queria mudar para um tipo de herói mais ambivalente, o que só conseguiu com Nakadai, o astro de Kobayashi e Eizo Sugawa. Céu e Inferno recebeu em inglês o título de High and Low. Tem uma seqüência colorida, embora existam cópias só em preto-e-branco. Coppola deve ter visto Céu e Inferno antes de fazer O Selvagem da Motocicleta. Scorsese é louco pelo filme. Anos atrás, Marty chegou a pensar num remake. Walter Salles foi cogitado para a direção. Com todo respeito por Walter, ainda bem que ele não foi adiante. Seria difícil conseguir fazer algo melhor do que Kurosawa, com sua riqueza de mise-en-scène conseguiu naquele thriller 100% cult.