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Luiz Carlos Merten

19 Março 2010 | 14h09

Quando visitei o set de ‘Quantum of Solace’, no deserto de Atacama, fui brindado – não individualmente, mas o grupo de jornalistas – com uma cortesia da produção. Saímos do set, propriamente dito, no observatório astronômico que abriga o maior telescópio do mundo, à noite. No meio do caminho, a van parou, fomos convidados a descer e a nos deitar no chão para olhar a Via Láctea. Foi uma das experiências mais fortes da minha vida. Acho que teria ficado lá, até hoje, a contar as estrelas. Vivi ali meu transe místico. Diante daqueles milhões de pontinhos luminosos, como não se sentir insignificante? Como não acreditar num poder superior? Estou me lembrando do céu do Atacama por um motivo completamente diverso. Chega hoje às lojas – pelo menos é a data anunciada pela distribuidora Lume – o DVD de ‘Antes da Chuva’. Fui quatro ou cinco vezes, nem me lembro, ao Festival de Veneza, nos anos 1990. Por uma estranha coincidência, acertei todas as vezes quem ia ganhar o Leão de Ouro. No caso de ‘Hana-Bi – Fogos de Artifúicio’, de Takeshi Kitano, nem foi tão difícil, porque havia um consenso entre a crítica, mas nos casos de ‘Antes da Chuva’ e ‘Cyclo’… Tinha gente que me achava louco, quando eu dizia que Tran Anh-hung ia ganhar. O próprio Milcho Manchevski me olhou como se eu fosse um ET quando o entrevistei e lhe disse que ‘Before the Rain’ ia levar o Leão. Na época, sob o impacto de ‘Tempo de Violência’ (Pulp Fiction), de Quentin Tarantino, eu curtia as estruturas cíclicas e a de ‘Antes da Chuva’ me encantou. Nunca me esqueci daquela noite estrelada que abre a primeira das três histórias narradas por Manchevski. O céu é tão carregado – artificial? – que aquilo parece um efeito hollywoodiano. O diretor me jurou que o céu da Macedônia era assim mesmo. A Macedônia era uma das repúblicas que compunham a antiga Iugoslávia. Lá foi filmada parte de ‘Casino Royale’, Na primeira história, um noviço acolhe num convento bizantino um garoto que, na verdade, é garota. Na segunda, as fotos desse primeiro casal vão parar em Londres, onde uma mulher (a sublime Kathryn Cartlidge, que morreu precocemente) se envolve com um fotógrafo da Macedônia. Na terceira, o fotógrafo volta aos montes de sua terra. Nas três histórias, Manchevski fala dos efeitos da guerra na vida das pessoas inocentes, mas ele próprio disse que a Macedônia não sofreu a devastação da guerra civil com a mesma intensidade da Croácia, ou da Sérvia. O filme não é sobre a destruição. Ele mostra a guerra sem tomar partido porque seu tema é a responsabilidade (e Manchevski não quer induzir o espectador). Em Londres, a câmera passa por um grafite rabiscado numa parede – ‘Lar é o lugar onde está o coração.’ A música imita Cazuza e diz que o tempo não pára ou, mais exatamente, que ele não volta. O tempo pode não voltar, mas a estrutura circular de ‘Antes da Chuva’, sim, pois se fecha, harmonicamente. Sempre tive a maior paixão pelo filme. Muito me decepcionou – a palavra exata seria ‘entristeceu’ – que Milcho Machevski não tenha correspondido depois. Tinha o telefone dele em Nova York. Nem sei se tenho mais. Poderia tentar retomar o contato, dizer-lhe que ‘Antes da Chuva’, finalmente, está saindo em DVD no Brasil. A estética do filme, sua beleza, é fundamental. Mas a questão ética, a discussão sobre a responsabilidade… Espero que quem nunca viu fique com vontade de assistir a ‘Antes da Chuva’. Que quem já viu, queira mais é rever. Eu quero.