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Cultura » Cenas de sangue

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Luiz Carlos Merten

01 Agosto 2011 | 22h35

Estou me sentindo ‘o’ retrógrado. Desde ontem tento autorizar um comentário do Fernando, no post ‘O horror, o horror’, e não consigo. Já pensei até em copiar o que ele diz, basicamente sobre o que é o nazismo – nacional-socialismo, partido dos trabalhadores alemães etc -, criando novo post para que o Fernando não pense que o estou censurando. Mas creio que vou voltar agora, mesmo que um pouco indiretamente, ao assunto do ‘horror’ – a desumanidade dos tempos modernos. Ontem fui à Reserva Cultural com meu amigo Dib Carneiro. Fomos ver ‘O Amor Chega Tarde’ – e depois eu falo do filme. Encontramos Jean-Thomas Bernardini, conversamos e entramos para ver o filme. Os lugares eram numerados. Sentamos numa das extremidades da sala. Atrás, sentaram-se dois caras, gays, mas isso não seria relevante, se eles não pudessem ser identificados como tal pela conversa e não pararam de matraquear. Silêncio, pelamor de Deus. O pior estava por vir. À minha direita havia um casal de namorados. Heteros. Fiquei meio escandalizado de ver, num cinema dito de arte, o carinha dando um malho na namorada, não o malho em si, mas uns beijos estalados, barulhentos, como nunca vi. Quase me ofereci para pagar o motel para a dupla. Na saída, tive de ligar para o Jean-Thomas para pegar um número de telefone e comentei o comportamento do público. Ele me disse que já pensou até em colocar um anúncio no começo da sessão. Assim como tem aquele que pede para desligar pagers e celulares, Jean-Thomas, sensatamente, quer pedir ao público que não fale (e se comporte) durante a projeção. Hoje pela manhã, fui ver o novo Hugo Carvana, ‘Não se Preocupe, Nada vai Dar Certo’, no Kinoplex. A sessão atrasou e ficamos de conversa. Nem sei em que circunstâncias comentei com Miguel Barbieri, da ‘Vejinha’, o que ocorreu comigo na Reserva. Com ele ocorreu coisa muito mais bárbara. Miguel estava de férias, havia perdido ‘Transformers 3’. No sábado à tarde,. ele foi ver o blockbuster de Michael Bay. O filme está em uma sessão, apenas, acho que no Cinemak do Shopping Eldorado. Os lugares não eram marcados, Miguel e seu acompanhante trocaram de lugar para não ficar perto de falastrões. Não adiantou. De repente, houve o maior tumulto, a maior gritaria. Miguel  virou-se para ver o que ocorria e um jovem socava violentamente um coroa – o cara tinha cabelos brancos -, que estava com o filho, ou neto. O cara falava com o menino, não sei se explicando o filme, o sujeito se irritou e partiu para o pau. Uma mulher passou mal, outra desmaiou, uma terceira gritava que asssim não dá – nem no cinema! Pensei no grande Dostoievski. Ivan Karamazov pergunta, lá pelas tantas, quem nunca desejou a morte de seu pai? Eu confesso que ontem tive meus impulsos bárbaros, também queria bater nos caras de trás ou no casal do lado, mas, como sou civilizado, consigo refrear meus impulsos. O cara na sessão de ‘Transformers’ liberou os dele e, na escuridão, saiu correndo antes que os seguranças, chamados às pressas, pudessem intervir. De novo vou dizer que essas coisas me deixam… Mal? Aturdido? Está cada vez mais difícil ir ao cinema, em sessões de público. Além da barulheira com os sacos de pipoca e os canudos de refrigerante, que algumas pessoas sugam para a gente ouvir na esquina, tem a turma do celular, que fica mandando torpedo, quando não falam, outros conversam e assim por diante. Acreditem. Do jeito que vão as coisas, ainda teremos cenas de sangue – na plateia, não na tela.

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