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Luiz Carlos Merten

27 Abril 2011 | 09h02

Olá! Eis-me de volta, depois de quatro dias sem dar notícias. Fui a Porto (Alegre), para o Cine Esquema Novo. Assisti a filmes, debates, conferi as transformações que descaracterizam cada vez mais a cidade em que nasci e me criei, e da qual imaginava que nunca ia sair. Ao contrário do Centro de São Paulo, que resiste bravamente, o de Porto parece terra de ninguém. No domingo, saí do hotel, não propriamente para dar uma volta, mas em busca de uma banca de jornais. Não havia nenhuma. Sabem o que é isso? Mas é possível que a Praça da Alfândega, que abriga a Feira do Livro e está cercada para reforma, ressurja como atração e dê uma ‘levantada’ naquela área. Tomara! O Cine Esquema Novo, Festival de Cinema de Porto Alegre, é animado por Gustavo Spolidoro, Alisson Ávila, Jacqueline Beltrame, Morgana Ressinger e Ramiro Azevedo. Busca conciliar tradição e modernidade, mas na essência é uma celebração do novo, do original, da ruptura, uma versão local da mostra de Tiradentes, em janeiro. O bom do CEN é que gera uma mostra itinerante que virá a São Paulo, em junho, na Matilha Cultural. Ainda não sei as datas nem os filmes, mas será uma versão reduzida. O CEN começou no sábado com ‘Os Residentes’, de Tiago Mata Machado, mas o debate foi realizado somente ontem, e o perdi, porque foi bem na hora do meu voo de volta. Mas assisti a um ótimo debate de ‘Ex-Isto’, que Cao Guimarães adaptou (livremente) de ‘Catatu’, de Paulo Leminski, pegando carona na tese do poeta – ‘…e se René Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau’? ‘Ex-Isto’ é muito interessante, muito bom de analisar e discutir (e Cao Guimarães e João Miguel, que faz Descartes, foram ótimos), mas é curioso. Conversando com Tiago Mata Machado, ele me disse que sei lá qual crítico português, mas resenhando o filme dele o cara disse que ‘Residentes’ é o filme mais criativo, original e de ruptura – mais CEN é impossível – a surgir no cinema brasileiro desde Glauber. Por mais que goste de ‘Residentes’, não o sinto como ‘glauberiano’. Minha leitura do filme passa muito mais por uma releitura das vanguardas russas, e é verdade que elas também inspiravam o baiano. Sinto muito mais Glauber na cena final com os atabaques e a Pietà negra que acolhe Descartes em ‘Ex-Isto’, enquanto a voz off recita o texto que fala sobre a razão da existência (que é existir). João Miguel desnuda-se, rola no barro, é a cena mais glauberiana que Glauber não filmou. Espero que ‘Ex-Isto’ venha para São Paulo com o CEN, será uma boa oportunidade para falar sobre o filme e também sobre ‘Baptista Virou Máquina’, de Carlos Dowling, e ‘Álbum de Família’, de Wallace Nogueira’, que foram os longas que consegui ver. Depois dos coletivos do Ceará, os irmãos Pretti e os primos Parente, e de Pernambuco, ‘Baptista’ revela um coletivo paraibano, que foi novidade para mim. O filme é uma experiência sensorial, musical e, de repente, a última parte meio que propõe uma releitura inversa, bem intrigante. Qual não foi a surpresa ao ouvir do diretor que se trata de um curta, interpretado pelo mesmo ator (Tavinho Teixeira), que ele agregou a seu média para que virasse um longa. O experimentalismo no cinema é um campo inesgotável, que o digam esses paraibanos. Mas, durante o corre-corre do CEN, arranjei tempo para ir ao Shopping Belas Artes, num fim de noite, para assistir a… ‘Pânico 4’. Wes Craven reabre sua trilogia. Mais uma série de três? O filme termina em aberto, sugerindo mais uma sequência (que poderá vir ou não). É intrigante como agrega as novas mídias e plataformas de comunicação para continuar discutindo a subversão das fórmulas tradicionais do cinema de horror. Além do celular, que já é velho, a webcam, o Facebook e o escambau. Vale tudo. Visto por esse lado, ‘Pânico 4’ busca refletir, talvez espertamente demais, a contemporaneidade – que, numa pegada bem distinta, também é o avatar do CEN.