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Luiz Carlos Merten

30 Outubro 2008 | 12h48

Hoje estou meio abalado, meio blue, como se diz – os assuntos são de foro íntimo -, mas de qualquer maneira o dia está sendo intenso e lá vamos nós, em frente. Daqui a pouco entrevisto Benicio Del Toro. Sei de um monte de gente que gostaria de estar em meu lugar. ‘Che’ encerra hoje a 32ª Mostra. Há grande expectativa pela exibição do longa – e põe longa nisso – de Steven Soderbergh, que se divide em duas partes, ‘O Argentino’ e ‘O Guerrilheiro’. O filme já foi exibido anteontem para a crítica. Confesso que não o revi, por falta de tempo, coisa que pretendo fazer, quando estrear. Estou sabendo que a distribuidora Europa lança primeiro um e somente depois de alguns meses lança o outro. Não sei se é uma boa. O próprio Soderbergh, em Cannes, disse que gostaria que os dois filmes fossem exibidos simultaneamente, coisa que, pelo visto, não vai ser possível.
Vou fazer o que não costumo – abrir parágrafos – porque o texto vai ser longo e eu não quero dividi-lo em vários posts. Che é um personagem extraordinário, e isso independe da orientação política e ideológica de quem se volta para ele. Cultivado com santo, adorado por remanescentes esquerdistas e neonazistas, esse homem – ícone? – é um mito que cada um configura como quer. Soderbergh admitiu em Cannes que não foi a ideologia que o seduziu, mas a persona. Herói ou anti-herói, o Che foi ao limite por suas convicções. Morreu por elas e foi isso que lhe interessou, mesmo que ele – o diretor – não comungue das idéias do personagem, como deixou claro. Faço só um hiato para dizer que tive essa sensação ao ver ‘A Paixão de Cristo’, do Mel Gibson. O filme é sobre Jesus, mas também é sobre a forma como o sistema, qualquer sistema repressivo, quebra os que lhe são contrários. Nenhum outro filme me mostrou com tanta intensidade o horror da tortura e, vendo ‘A Paixão de Cristo’, eu via o Che, as vítimas das ditaduras militares que ensangüentaram o Cone Sul e, por isso, o filme me impressionou tanto. O que vou dizer talvez cause espanto, ou provoque mal-entendidos. Fazer o quê?
A primeira parte de ‘Che’ – ‘O Argentino’ – é bastante atraente, com todos aqueles vaivéns da narrativa. Ela tem, inclusive, as que me parecem as grandes cenas do díptico – o discurso na ONU, a recepção na casa da socialite, quando aquela esquerda chique fica embasbacada pelo revolucionário. A segunda parte, justamente ‘O Guerrilheiro’, é mais problemática. Acompanhamos a destruição física, mas não a do sonho, pois há uma pirueta, um flash-forward, no final, como se Soderbergh, no limite, não quisesse terminar o filme tão para baixo, convencido, o que é verdade, que o mito sobrevive, 40 anos após a morte de Ernesto Che Guevara na selva da Bolívia. Essa segunda parte talvez seja o filme que Richard Fleischer quis fazer no calor da hora –’Causa Perdida’, de 1969 –, mas não pôde. Fleischer é muito maior diretor do que Soderbergh, mas esta é outra história. O co-produtor Richard Zanuck queria um filme sobre o Che, mostrando o ponto de vista do guerrilheiro e o de seus opositores. Isso interessava ao diretor. A Fox topou, mas ao ver as primeiras imagens o estúdio passou a temer pelo ‘antiamericanismo’ que parecia estar tomando conta do projeto, numa época em que a América Latina, ou pelo menos o Cone Sul, virara reduto de ditaduras militares brutais. Conta a lenda que o outro produtor, Sy Bartlett, impedido por Fleischer de entrar no set, invadiu a filmagem de arma na mão, apontada para o diretor. Fleischer concluiu o filme, mas a verdadeira causa perdida foi a dele. Na época, a esquerda caiu matando sobre o filme, demonizando, como simplificação hollywoodiana, a figura – reacionária? – do camponês que atrai o Che para uma emboscada porque a movimentação na área – de guerrilheiros e militares – perturba suas cabras e elas param de dar leite. Quarenta anos depois, em outra época da história da América Latina, a tese de Soderbergh continua a mesma, mas agora alguma coisa mudou, porque a própria esquerda parece disposta a acreditar no filme como uma versão mais justa. Acho que o verdadeiro foco de discussão, o que a mim interessa, pelo menos, é esse. Che continua sendo idealizado – o belo ‘Diários de Motocicleta’, de Walter Salles, que toma partido de forma muito mais apaixonada pelo personagem –, mas o ponto é justamente a ambigüidade. Muita coisa mudou de 1968 para cá. Mudou a própria relação com o mito. O santo Che, o ícone de jovens contrários à globalização – e que ainda sonham com a revolução permanente –, a referência dos punks nazistas. Como o mesmo personagem se presta a tantas e tão diferentes interpretações. Isso, o Che de Soderbergh não explica.