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Cultura » Catherine Deneuve, Après Lui

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Luiz Carlos Merten

29 Maio 2007 | 13h53

PARIS – Se houve um tema dominante no Festival de Cannes deste ano, foi o sentimento de perda. Pais e mães enterraram seus filhos, filhos enterraram os pais e amantes foram confrontados com a ruptura definitiva. A morte fez-se presente em todas as seções. Elaine Guerini me havia falado de Après Lui, de Gael Morel, que passou na Quinzena dos Realizadores. Todo dia Elaine me perguntava se eu havia conseguido assistir a Depois Dele. O festival terminou e eu perdi o filme, mas Après Lui já estreou em Paris. Fui ver ontem. Catherine Deneuve faz a mãe que perde o filho. O que uma mãe faz depois de enterrar a carne de sua carne? Catherine tem uma cena forte, em que desaba emocionalmente. No restante do tempo, tenta parecer fria, para poder seguir com a vida, mas é evidente que está passando por uma provação. Gael Morel é ainda pouco conhecido como diretor, no Brasil. Como ator, fez Rosas Selvagens, de André Téchiné, justamente no papel do jovem gay que era o alter ego do diretor. Téchiné é um dos diretores favoritos de Catherine Deneuve. Ela própria já disse que, com ele, não tem medo de ir ao limite das emoções. A relação de confiança transferiu-se para Gael, que é cria de Téchiné. Seu filme não é O Quarto do Filho 2, mas também elabora o luto. Nascemos para morrer, é a única certeza, mas a morte permanece o maior dos mistérios. A morte brutal, na juventude é uma coisa que toca. A morte do filho é impensável, o pior flagelo para um pai e uma mãe. É antinatural. O que o filme mostra é esse momento, após a morta, em que a vida vem, para quem fica, mas isso não completa o vazio. Fantasiei um pouco. Até hoje, existe um assunto tabu nas entrevistas com Catherine Deneuve e é a morte de sua irmã, Françoise Dorléac, atriz de Jacques Demy (Duas Garotas Românticas), François Truffaut (Um Só Pecado) e Philippe De Broca (O Homem do Rio). Vi o filme de Morel como uma forma, 40 anos depois, de Catherine fazer seu luto diante da câmera. Après Lui não é uma obra-prima, mas é uma dupla experiência, estética e emocional. Espero que seja, ou já tenha sido, comprado para o Brasil. Jean-Thomas, da Imovision, e André Sturm, da Pandora, são os que têm perfil para lançar este filme. Catherine foi melhor atriz em Veneza, há alguns anos, por seu papel em Place Vendôme, de Nicole Garcia. Nunca entendi aquele prêmio. Ela é tão melhor em Après Lui. Gael Morel revelou, por trás da mulher de gelo, a mãe sofredora.