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Luiz Carlos Merten

18 Outubro 2010 | 09h26

Olá, não tenho dado notícias nos últimos dias. Mas tinha matérias para fazer – para apurar –, fui ver filmes nas cabines da Mostra, lançamentos que havia perdido nos cinemas e até teatro (as três horas de ‘Gypsy’, ainda por cima no Teatro Alpha, o que significa mais umas duas horas – para ir e voltar). Arre! vamos por partes. Havia escrito o texto de sexta, na edição do ‘Caderno 2’, sobre os ‘Contos da Era Dourada’, em que Christian Mungiu e seus colegas cineastas revisam o horror que foi a ditadura comunista de Nicolae Ceausescu na Romênia. Assisti a ‘Luvas Vermelhas’ na Mostra e o filme é bem interessante, como se fosse a versão longa de um daqueles ‘contos’. Documenta – é bem o termo, como se fosse um documentário – o processo de quebra da vontade que leva um jovem a colaborar com o regime, denunciando o próprio irmão. A história é real e o protagonista, que nunca se recompõe da experiência, virou padre aos 45 anos, informa o letreiro no final. Não é um filme agradável de ver, mas uma parte, em especial, me interessou bastante. O protagonista é um intelectual, um autor, e numa cena é interrogado por um agente que, obviamente, tem embasamento filosófico e discute com ele não apenas a dialética, mas também o conceito aristotélico de ‘catarse’. Esse homem terminará por se tornar suspeito para o regime e também ele é preso e torturado, perdão, ‘interrogado’. Acho a relatividade desses pontos de vista uma coisa perturbadora. Ontem, a caminho do Alpha, passei pela ponte do torturador. O cara, segundo o documentário ‘Cidadão Boilesen’ – e a versão nunca foi contestada, que eu tenha visto –, emprestava carros de determinado jornal para transportar presos políticos que eram torturados durante a ditadura militar. Terminou dando nome a um viaduto meio cartão postal, cuja utilidade sempre me parece discutível. Passo por lá em vários horários, vejo a Marginal sempre entupida e só uma meia dúzia de carros no tal viaduto. Quando é que o  ‘monumento’ estético vai ser integrado, de verdade, ao sistema viário da cidade? Deliro, não? Mas, de volta ao meu sábado, almocei com minha filha no Arteplex e aproveitei para ver ‘Juntos por Acaso’ com ela. O filme de Greg Berlanti (quem é?) é sobre casal que, na primeira cena, sai para um encontro arranjado – ‘às escuras’ – e é um desastre. Mas eles são padrinhos do bebê de outro casal, o que tentou aproximá-los, e ambos morrem num acidente, deixando para os protagonistas a guarda de sua filha. A-do-rei o filme do tal Berlanti. Catherine Hegl não tem curvas (bunda!), mas é sexy e encantadora. Josh Duhamel, que faz o garanhão, é uma cara conhecida, mas fiquei com preguiça de procurar na internet para tentar descobrir de onde o conheço. Os dois formam uma dupla muito legal e você sabe, claro, que vão se apaixonar e vão formar uma família com a menina – Sophie –, mas o jeito como isso ocorre é tão bonito, tão envolvente, e os dois tão ‘críveis’, que terminei abrindo o berreiro. Voltando a Aristóteles, e à catarse, o cinema é uma coisa maravilhosa. É curioso como certos filmes ‘comerciais’ conseguem me passar mais coisas do que outros, intelectualmente mais ambiciosos, mas, no limite, vazios. O importante é não ter preconceito. Eu tento não ter.