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Luiz Carlos Merten

28 Dezembro 2006 | 10h17

Poderia ficar postando mais coisas sobre Cassino Royale, mas esta vai ser a última, pelo menos por enquanto. Poderia falar dos créditos, para discutir como Saul Bass revolucionou o setor e Maurice Binder, como discípulo aplicado, levou adiante suas lições na série com James Bond. Os créditos de Daniel Kleinman para Cassino Royale seguem a tradição de Binder, mas com uma vulgaridade assumida que tem a ver com o gosto e as platéias de hoje. (Aproveito para dizer que os créditos que Saul Bass criou para Bunny Lake Desapareceu, o thriller de Otto Preminger, talvez sejam os que mais me impressionam na história do cinema – o recorte daquele bonequinho, representando o bebê desaparecido, é coisa de gênio, como o próprio filme, o último grande de Preminger). Mas, enfim, o que quero fazer agora é uma ponte entre Issach De Bankolé em Cassino Royale e os guerrilheiros africanos de Diamante de Sangue, de Edward Zwick, que estréia na sexta-feira, dia 5. Issach, no filme, não se separa do facão, que usa contra 007 e, antes dele, contra o vilão Mads Mikkelsen, ameaçando decepar o braço da namorada dele. Os guerrilheiros de Diamante de Sangue também usam o facão e, de cara, eu estava achando preconceituoso. Tudo bem – a gente sabe que a violência tribal é um horror na África e que é, ou era, costume decepar a mão ou o braço do inimigo. Mas, no filme com Leonardo DiCaprio (Diamante), uma linha do diálogo explica que foi uma herança do colonialismo belga. No Congo, os nativos rebeldes eram punidos pelos senhores europeus, tão cultos e ‘civilizados’, com a lei do facão. O que vemos, portanto, é o horror do colonizado assumindo o comportamento do colonizador. Que isso seja feito entre tribos é outra tragédia africana, mas ecos também transparecem do outro lado do Atlântico, no Haiti de Em Direção ao Sul, o filme do francês Laurent Cantet, que estréia amanhã (a última estréia do ano). No fuiklme de Cantet, o turismo sexual serve de ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre as relações entre Norte e Sul. Charlotte Rampling faz parte de um grupo de coroas européias que buscam prazeres no paraíso das Antilhas. No resort, as européias podem levar seus nativos para a cama, mas não para a sala de refeição do hotel. Quando Charlotte tenta fazer isso, o gerente proíbe. Ela comenta – ‘Como eles são racistas entre eles!’ e o gerente, por sua vez, diz uma coisa maravilhosa – ‘Meu avô tinha razão ao dizer que os brancos são piores que macacos’. Tudo está conectado. Cassino Royale com Diamante de Sangue e Em Direção ao Sul. Não é só o cinema de autor que pode nos fazer pensar.