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Luiz Carlos Merten

28 Dezembro 2006 | 09h23

Fui ontem rever Cassino Royale no Arteplex. Última sessão do dia, 21h20. Os dez ou 15 minutos iniciais são conturbados. Uma falha de projeção superpõe as imagens iniciais do filme de Martin Campbell, na República Checa, com a propaganda do volume da coleção de literatura do Instituto Moreira Salles dedicado a Guimarães Rosa. A sala quase veio abaixo, de tanta gritaria, mas pelo visto estava todo mundo meio morto no lobby, pois demorou até se tomassem providências. Apareceu alguém para pedir desculpas e anunciar que a sessão iria recomeçar dali a pouco. “Pqp!”, gritou bem alto um sujeito, provocando risos e aplausos da galera. Apagam-se as luzes, a sessão vai recomeçar. Havia visto Cassino Royale em Nova York, convidado pela Columbia, quando entrevistei o diretor Campbell, o novo 007, o ator Daniel Craig, e mais a produtora Barbara Broccoli, a estrela Eva Green, a bondgirl Caterina Murino e o vilão Mads Mikkelsen. Com todas as limitações que possa ter um filme de James Bond, continuei gostando e até achei melhor. A gênese de 007 mostra um sujeito apaixonado e, portanto, mais vulnerável, aprendendo a construir a couraça do agente com licença para matar. Já sinto o protesto do amigo que diz que é bobagem perder tempo com James Bond, com o SBT, quando há tanta fome no mundo e tantos problemas para resolver no Brasil. Mas é claro que é preciso discutir James Bond. A série é simplesmente a franquia mais bem sucedida de todos os tempos, o que significa que o personagem foi visto e, possivelmente, afetou bilhões de espectadores em todo o mundo. Mais que a mudança de ator, possibilitando a mudança de enfoque, acho que cabe destacar aqui o detalhe – o roteiro foi reescrito por Paul Haggis, o roteirista de Menina de Ouro, que depois escreveu e dirigiu Crash – No Limite, que também venceu o Oscar de melhor filme deste ano, derrotando o favorito O Segredo de Brokeback Mountain. Revendo, com toda atenção, deu para observar como Cassino Royale é bem escrito – e filmado. O primeiro encontro de Daniel e Eva Green no trem tem um diálogo taco-no-taco, que o diretor Campbell, especialista em cenas de ação, filma com o timing das velhas screwball comedies de George Cukor e Howard Hawks. O ritmo e o verbo são preciosos, mas poderiam ser desperdiçados, sem o elenco certo. Daniel Craig é um verdadeiro ator, Eva Green é maravilhosa e a psicanálise que vão fazendo, um do outro, é uma maravilha. E a história de amor e traição dos dois é linda – e triste. Cassino Royale não vai mudar minha vida nem minha concepção de cinema, mas, sinceramente, lamento por quem não consegue embarcar na aventura e retirar dela o que tem de bom.

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