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Cahiers e a democracia na América, Sight and Sound e as mulheres

Luiz Carlos Merten

01 Maio 2018 | 21h19

Havia comprado, na banca do Conjunto Nacional, o exemplar de fevereiro de Cahiers du Cinéma e o de abril de Sight and Sound, com Wes Anderson, Isle of Dogs, na capa. Não sou o maior fã de Cahiers nem rezo na cartilha da revista, mas gosto de ver como seus redatores se reinventam, enquanto os filhotes da publicação, aqui mesmo em São Paulo, continuam defendendo um cinema autoral com ranço pós-nouvelle vague. Cahiers fevrier celebra na capa o Cinema Americano, com direito a foto de The Post e chamada para três autores – Steven Spielberg, Paul Thomas Anderson e David Gordon Green. A revista faz a mesma análise que eu do Spielberg, que prossegue com os temas de Lincoln (e a discussão sobre a democracia na América). Como o lendário presidente, Katharine Graham chega a um momento de decisão, em que tem de fazer uma escolha. ‘Let’s do our jobs, Let’s do it!’. Jean-Sébatien Chauvin, em Cazhiers, toca o ponto essencial para mim, algo que escrevi no jornal, e talvez no blog. Spíelberg transforma idéias em filme de ação e, num arroubo de Joseph L. Mankiewicz, elabora sua mise-en-scène em torno ao dinasmismo dos diálogos. Magnífico. Há tempos não gostava tanto de um filme de Anderson como de Trama Fantasma. E o David Gordon Green, o processo de recuperação de Jake Gyllenhaal, após ser atingido na maratona de Boston em O Que Te Faz Mais Forte é outro puta filme. Nenhum obteve a recompensa do Oscar, e Gyllenhaal não foi nem indicado, Academia de m… Antônio Gonçalves Filho, editor do Aliás, que ama Antonio Pietrangeli, vai gostar de saber que Cahiers prossegue com o resgate do grande diretor italiano, dessa vez valendo-se do relançamento, nos cinemas da França, de Adua e Suas Companheiras. Em Sight and Sound, nada talvez tenha me interessado mais que o texto de Mark Cousins, Twin Peaks. Não, não é sobre o retorno da obra cultuada de David Lynch, mas a análise cruzada que o crítico e cineasta faz das trajetórias de duas estrelas lendárias – a diva negra Lena Horne e a chamada operária da interpretação, Susan Hayward. Consegui achar mais interessante, e reveladora, espécie de pré-#MeToo, que Stealing Beauty, outra análise, por Pamela Hutchinson, sobre como Hollywood não estava preparada para o furacão Hedy Lamarr, uma estrela duplamente adiante de sua época. Tinha o QI de um gênio e apareceu nua em Ecstasy, de 1933, quando isso era impensável na indústria. O detalhe é que havia hoje na banca outra Cahiers, a de março. Pourquoi le cinéma?, Por que o cinema? Essa vou ter de deixar para amanhã, mas antecipo que o debate sobre o cinema, nessa quadra do século 21, e da história da humanidade, dá o que pensar.