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Casa de Bonecas ou Histórias Que Nossas Babás não Contavam?

Luiz Carlos Merten

23 Março 2015 | 15h11

Em geral não ligo para o politicamente correto e consigo ser tão preconceituoso quanto qualquer pessoa, mas confesso que, sem bancar o virgem no bordel, existem coisas que me escandalizam. Fui ver A Fantástica Casa de Bonecas, que Dib Carneiro Neto traduziu e José Wilker ia dirigir, sendo substituído por Clarisse Abujamra, cujo pai, Antônio, estragou a melhor peça escrita por meu amigo, Paraíso. Clarisse respeitou o texto – afinal, um Ibsen, mesmo que a peça seja uma franquia e deva seguir fundamentos da montagem original. Nora e seus anões. Para realçar a submissão feminina, os homens da peça viram anões, que, mesmo assim, dominam a mulher reduzida à condição de boneca. Abro um parêntese – a montagem foi capa da F… (não é o que vocês estão pensando, mas a concorrência) na semana passada e, por se tratar de um texto traduzido pelo Dib, resolvi ler a matéria. Não corri atrás, o jornal estava em cima da mesa, que fique claro. Além de não ter nenhuma referência à tradução do meu amigo, também não havia ao fato de ser franquia, o que podia induzir o leitor a pensar que foram os criadores da versão brasileira que tiveram a ideia do conceito cênico (e interpretativo). A m… do jornal além de tudo informa mal. O que me escandalizou? Não, não foi isso. Nas investidas sexuais de Torvald sobre Nora – o cara que faz o papel é muito bom -, a plateia ria como se estivesse assistindo a Adele Fátima em Histórias Que Nossas Babás não Contavam, o que não era o caso, evidentemente. Acho muito interessante que a presença do ‘verticalmente prejudicado’, o eufemismo correto para anão, perturbe tanto as pessoas. A Fantástica Casa de Bonecas é anterior a Blanca Nieves, de Pablo Berger, a versão espanhola e live action do conto clássico. Na época, conversei com o diretor, que visitava São Paulo e comentei com ele como me impressionara a desenvoltura do anão que fazia o apaixonado pela protagonista. Ele me disse que, na Espanha, anões são muito requisitados em festas de despedida de solteiros, um pouco porque dão sorte (a velha tradição das cortes), mas também porque há uma mística de que eles compensam com o gigantismo da genitália a baixa estatura. Tão pequeninho com o tambor tão grande… O anão em questão, de Blanca Nieves, era muito requisitad0 justamente porque correspondia à lenda. Um cara acostumado a esse tipo de exposição não teve problemas com a câmera, por isso ele me parecera tão à vontade. O que isso tem a ver com Casa de Bonecas? O nervoso do público, rindo nas cenas de sexo, só faz sentido para quem sabe da mitologia (dos inconfessáveis segredos?) rondando os anões. Ou não?