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Luiz Carlos Merten

04 Fevereiro 2007 | 11h14

Minha aflição, ao não haver sequer aberto o blog para ler (ontem) os comentários, era saber o que os leitores iam dizer do fato de eu haver gostado mais de A Conquista da Honra que de Cartas de Iwo Jima. Está certíssimo quem disse que os dois filmes formam um díptico que deve ser visto como uma obra só. Assisti ao filme na cabine da Warner, em companhia de Inácio Araújo e Miguel Barbieri. Miguel até levantou uma possibilidade – adoraria que o Clint, um dia, fizesse uma só montagem dos dois filmes, mas sabe que é impossível, pela própria natureza do projeto. Essa montagem única, se alguém tem de fazer, somos nós. Quero só pedir que o outro leitor, que não tem mais paciência para filmes sobre 2ª Guerra, abra uma exceção, aliás duas, e veja A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima. Nem tudo já foi dito sobre a 2ª Guerra. Ainda existem histórias importantes a resgatar – como as desses filmes. Posso ter preferido A Conquista, mas não subestimo Cartas. E ah, sim, não estou sendo racista nem preconceituoso com os japoneses, mas tinha de haver uma explicação para o fato de a cultura do harakiri ser tão forte no país, vocês não acham? (E Harakiri, do Kobayashi, seguido de Rebelião, do mesmo diretor, formam outro díptico espetacular. São meus filmes japoneses favoritos, gosto ainda mais de Rebelião, por mais que admire Kurosawa, Ozu e Mizoguchi.)O imperador era adorado como deus-Sol e, quando os americanos impuseram a derrota ao país, no fim da 2ª Guerra, após a destruição atômica de Hiroshima e Nagasaki (e o filme do Kurosawa, Rapsódia de Outono, eu acho lindo), a fala do imperador, assumindo-se como mortal e aceitando a derrota, teve o efeito de uma terceira bomba atômica sobre o Japão tradicional. De que outra maneira explicar a cena do Clint em que os caras vão se matando, um a um? cartas concorre ao Oscar e estará no Festival de Berlim, que começa na quinta, dia 8. Ainda não conferi a programação, mas sei que passa nos primeiros dias. Estou em êxtase porque ‘acho’ que foi entrevistar o Clint em Berlim, se a agenda dele não estiver muito apertada por causa do Oscar e ele não tiver de regressar imediatamente aos EUA. Ken Watanabe, que faz o oficial japonês, Kuribayashi, também estará lá. Entrevistei o cara em Nova York, na época de Memórias de Uma Gueixa, e fiquei impressionado com sua majestade. Acho que quem me fez gostar de Edward Zwick foi ele. Achei o Watanabe genial em O Último Samurai. Achei o filme legal, como acho a história de Diamante de Sangue eletrizante. Mas não superestimo O Diamante. Sei dos limites do filme, o que não me impede, evidentemente, de achar Leonardo DiCaprio melhor que em Os Infiltrados e constatar duas injustiças. Nem Watanabe nem Djimon Hounsou (por Diamante) foram indicados para o Oscar. Ou me engano?