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‘Cartas para Julieta’

Luiz Carlos Merten

13 Junho 2010 | 13h39

Na onda de todos esses filmes românticos cujo lançamento pegou carona no Dia dos Namorados, quero dizer duas ou três coisas sobre ‘Cartas para Julieta’. É o tipo do filme ruim de que gosto e me permite viajar no meu imaginário. ‘Cartas para Julieta’ foi produzido por Ellen Barkin – a atriz, que Elaine Guerini entrevista no ‘Caderno 2’ de amanhã -, sobre garota norte-americana que vai à Itália com o noivo, o cara é chef, entra num trip louca de trabalho e ela se integra ao grupo de secretárias de Julieta, que redige respostas para as cartas que mulheres de todo o mundo, de todas asa idades e condições sociais, dirigem à heroína romântica de Shakespare. Amanda Seyfried, que faz o papel, descobre uma carta que ficou esquecida por 50 anos nos escaninhos do tempo. Quem a escreveu foi a jovem Vanessa Redgrave, que agora, já velha, recebe a resposta e segue o conselho de Amanda e parte em busca de seu antigo amor. Amanda integra-se ao grupo formado por Vanessa e seu neto – e a coitadinha, carente, vocês já viram, não é?. A busca pelo estranho de olhos azuis termina sendo uma homenagem do diretor Gary Winick ao mítico romance de Vanessa Redgrave com o astro de spaghetti westerns, Franco Nero, o ‘Django’. O roteiro pela Itália é lindo, mais ‘Candelabro Italiano’ do que ‘Viagem na Itália’, ou seja, mais Delmer Daves do que Roberto Rossellini, e o reencontro de Vanessa com seu Franco me emocionou. Há 40 e tantos anos, acho que Vanessa ainda era casada com Tony Richardson quando co-estrelou com Franco Nero o musical ‘Camelot’, de Joshua Logan. O filme foi um grande fracasso de público e Nero, cantando mal, era algo constrangedor, mas ‘Camelot’ forma um curioso díptico com outro musical de Logan, que também não foi muito bem na  bilheteria, ‘Os Aventureiros do Ouro’ (com Lee Marvin, Clint Eastwood e Jean Seberg). O triângulo que Vanessa forma com Lancelot e o rei Arthur (Richard Harris) desestabiliza a utopia de Camelot e Logan, para mostrar que não era misógino, fez depois seu western musical em que a mulher, e outro triângulo, prende os homens à terra e cria a civilização, ali onde ela era ameaçada na saga arthuriana. Na sequência de ‘Camelot’, e já juntos, Vanessa e Franco Nero fizeram na Itália ‘Um Lugar Tranquilo no Campo’, de Elio Petri, sobre escritor vítima de alucinações numa casa que parece assombrada pelo espírito da mulher ali viveu (e foi morta pelo amante) antes. Elio Petri fez ‘Un Tranquillo Posto di Campagna’ em 1968, lembro perfeitamente o ano, entre ‘Condenado pela Máfia’, seu melhor filme, e ‘Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita’, o mais famoso, que o estabeleceu como grande nome da estética política do cinema italiano por volta de 1970. Ninguém entendeu muito bem ‘Um Lugar Tranquilo no Campo’, mas a obsessão, a neurose que ronda o personagem de Franco Nero é a mesma que ‘possui’, em outro contexto, os personagens de Gian Maria Volontè em ‘Investigação’ e ‘A Classe Operária Vai ao Paraíso’. Não creio que ‘Um Lugar Tranquilo’ fosse bom, mas era um filme de grande beleza visual – fotografia de Luigi Kuveiller, música de Ennio Morricone – e tinha cenas magníficas, disso estou certo. Fiquei ontem viajando nessas lembranças ao assistir a ‘Cartas para Julieta’, que ainda tem a participação, como outra das secretárias de Julieta, de Milena Vukotic, atriz iugoslava que fez carreira na Itália, nos anos 1960/70, em filmes como ‘Venha Tomar Um Café Conosco’, de Alberto Lattuada. Estava vendo o filme e viajando, à espera do momenrto em que Franco Nero, enfim, entrasse em cena, com seu olhos azuis, aos quais ‘Claire’, a personagem de Vanessa, se refere tantas vezes. Ele entra a cavalo (Django?), charmoso porque envelheceu bem e galante, como convém a um herói romântico. Não vou recomendar que vejam ‘Cartas para Julieta’, mas o que o filme me deu – ou o que dei a ele, com minhas lembranças – fez do programa algo encantatório.

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