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Luiz Carlos Merten

03 Julho 2011 | 13h51

Estava bradando contra os deuses da tecnologia, quando recebi a visita de Ana Paula Souza,  que teve o dom de me acalmar. Ontem, havia perdido meu primeiro post, digitado diretamente no blog. Hoje, resolvi digitar no Word, para colar depois. Quando fiz o contra + C sumiu tudo. Começar de novo… Saí da UTI, mas continuo hospitalizado, é bom acrescentar. Quando aqui cheguei, dias atrás, meu amigo Dib Carneiro me informou da morte de Gustavo Dahl. Imediatamente pensei que Ana Paula deveria tê-lo enterrado na ‘Folha’ e o Jotabê Medeiros no ‘Caderno 2’. Eu confesso que teria brigado para fazer o necrológio de Gustavo. Ele pode  ter sido o ideológo, o teórico do Cinema Novo com Leon Hirszman, pode ter sido fundamental no processo de estabelecimento do Congresso Brasileiro de Cinema, trabalhando com aliados – Assunção Hernandez e Beto Rodrigues, entre outros -, que levaram à Ancine e ao estabelecimento das políticas públicas que mudaram a face do cinema do País nos últimos anos (e décadas), mas eu não minimizo o autor. Permitam-me digredir, um pouco. O primeiro CBC a gente não esquece. O primeiro que fui foi no Hotel São Rafael , em Porto. Foi a retomada de uma velha conversa, lembrando desde iniciativas da Embrafilme, do Concine. Nas entrelinhas, percebia-se uma mudança de guarda, uma substituição dos velhos caciques do cinema brasileiro. O segundo Congresso ainda foi em Porto Alegre, não me lembro se formalmente, mas foi um encontro no quadro do Forum Mundial Social, que reuniu na Pontifícia Universidade Católica, a PUC, delegados de todo o mundo. Vieram discutir se um altro mondo era possibile e o papel do audiovisual nessa nova construção. Pode ser ingenuidade minha. Foi o meu Maio de 68, o ano que não termina nunca. Época de renovar crenças Foram dias e noites de uma energia febril, extraordinária. Tempos mais tarde, anos, assisti no Spsce Saint Michel, em Paris, a um documentário sobre o Forum em Porto Alegre. Grêmio  e Inter venceram a batalha de Tóquio, mas foi o Forum que colocou Porto no mapa da boa consciência do mundo. Minha ex-mulher e filha, quando estou em Porto, sempre sabem que tem aquele momento em que desapareço. Doris diz, meio na brincadeira, que vou cumprir meu fado. Vou sempre ao mesmo lugar. Um cemitério das minhas ilusões? Não creio. É mais um sentimento de que não estou, nunca estive sozinho.Mas eu preciso ir só naquele lugar.  No Parque Marinha do Brasil, próximo ao Anfiteatro Por do Sol, há um velódromo. Não sei se será alterado por conta das novas mudanças de acesso para o Beira-Rio, em função da Copa. Na extremidade do velódromo há um círculo, cada vez mais invadido pela erva. Os integrantes do Forum deixaram ali seu testemunho. Placas comemorativas, das mais diferentes regiões do mundo. E eu gosto de passar por ali. Placas em inglês, francês, italiano, espanho, placas em línguas que desconheço. Imagens de Terra, de gente, de animais. Um outro mundo é (cada vez mais difícil, mas) possível. E, às vezes, se pego o entardecer do Guaíba, o mais belo do mundo, eu choro. Quantas mudanças, ao longo de uma só vida. Volto a Gustavo Dahl. Ele nasceu na Argentina, viveu no Uruguai, chegou ao Brasil quando eu tinha 2 anos. Ninguém dos meus amigos entendia como eu podia gostar de ‘O Bravo Guerreiro’. Pertenço a uma geração que curtiu a nouvelle vague e o o pós neo-realismo, mais fissurada por Roberto Rossellini do que por Vittorio De Sica, mas cujos grandes amores foram Alfred Hitchcock e os grandes de ação de Hollywood. Eu desenvolvi aquele amor torto pelo ‘Bravo Guerreiro’. O filme forma um bloco com ‘Terra em Transe’, de Glauber Rocha, e ‘O Desafio’, de Paulo César Saraceni. Ou eu me engano muito ou Gustavo Dahl e Saraceni cursaram o Centro Sperimentali, em Roma. Tenho a impressão de que Gustavo esteve rapidinho em Tiradentes para a homenagem a Saraceni, em janeiro. Lembro-me de ter trocasdo duas ou três palavras com ele. Se não foi ali, onde terá sido? ‘Terra em Transe’ é considerado um dos grandes filmes do cinema brasileiro. ‘O Desafio’ é contaminado pelo neo-realismo, por Rossellini. Oduvaldo Viana Filho expressa a impotência do intelectual levando Isabella por aquela casa em ruínas. A esquerda brasileira ainda não tinha um projeto, desmontada que fora pela repressão da ditadura. Mas as respostas viriam. Gustavo Dahl me surpreendia. Era ‘o alemão’. ‘O Bravo Guerreiro’ sempre me pareceu dever mais a Jean-Marie Straub do que a Rossellini. Aquele rigor da palavra, o minimalismo da mise-em-scène. E a imagem de Paulo César Saraceni com aquele revólver enfiado na boca é embemática do período. Gustavo Dahl concorreu em Gramado alguns anos depois com ‘Uirá, o Índio em Busca de Deus’. Lembro-me que Walter Hugo Khouri também concorria com seu ‘Anjo do Mal’, ou da morte, em que Eliezer Gomes, invadia aquela casa para promover uma carnificina. Apesar das diferenças, os dois filmes compartilhavam uma inquietação, digamos, metafísica. Ambos foram vencedores. Num clima de polarização, Ana Maria Magalhães fez um discurso de agradecimento que Khouri considerou ofensivo. Tudo isso é passado, mas eu não creio que Gustavo Dahl tenha se tornado um batalhador pelo mercado do cinema brasileiro sem ter sido um bravo guerreiro em defesa do cinema miúra que, em  seus melhores momentos, logrou fazer. Admito que nunca tive com Gustavo Dahl o diálogo que gostaria de ter tido, sobre os filmes. Eram sempre as políticas do cinema que predominavam na conversa. Os filmes, carrego comigo.

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