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Luiz Carlos Merten

11 Novembro 2007 | 18h32

É incrível como a memória da gente funciona e faz associações. Que o diga Marcel Proust, com seu monumento literário chamado ‘Em Busca do Tempo Perdido’. Cada um tem as madeleines que pode, ou merece. Acho linda a cena de Emmanuelle Riva, após a noite de sexo com Eiji Okada, em ‘Hiroshima, Meu Amor’, de Alain Resnais. Ela se encosta na porta, tomando um café e olhando o amante que dorme, deitado de bruços, na cama de hotel. Ele faz um movimento com os dedos e entra o flash da lembrança. O gesto traz de volta outro movimento de dedos, do soldado alemão que Emmanuelle amou quando jovem, em Nevers, e que foi morto (ele) pela resistência. Nossa! Não sei nem se vou adiante falando de Damiano Damiani ou se fico aqui cantando meu amor por ‘Hiroshima’. A questão é que, desde sexta, não sei que associação mental eu fiz, mas a verdade é que me veio como um raio um dos primeiros filmes do Damiani, bem antes que ele virassse o diretor de ‘Confissões de Um Comissário de Polícia ao Procurador da República’ e ‘Só Resta Esquecer’. Nunca me esqueci da crueldade do último plano de ‘O Batom’, o longa de estréia de Damiani, quando o comissário Pietro Germi desmascara o bonitinho mais ordinário Pierre Bricê. Não sei se um pouco pelo meu defeito físico, mas aquela cena é, literalmente, f… para mim (e se vocês virem o filme vão perceber). Mas não foi daquele Damiani que me lembrei, de repente, mas sim do terceiro ou quarto filme que ele fez, ‘La Rimpatriata’, que aqui se chamou ‘Indifelidades à Italiana’. O filme conta a história desses amigos, todos casados e bem situados na vida, que se reencontram e, como sempre fizeram, pedem a Walter Chiari – o único deles que não deu certo – que arranje mulheres para o grupo. Ele o faz, mais uma vez, e termina humilhado com a mulher que forneceu aos ‘amigos’ (mesmo que ela não fosse legalmente a dele). Na verdade, o que me veio foi a cara do Walter Chiari. Nunca mais havia me lembrado do sujeito, nem sei se está vivo e imagino que, para muitos de vocês, deva ser um ilustre desconhecido. Mas houve uma época em que o mundo inteiro invejava Walter Chiari, porque ele ficava com as melhores mulheres (chega a Ava Gardner?). Walter Chiari é maravilhoso no desfecho de ‘La Rimpatriata’, neste amanhecer em que se defronta com o m… em que se transformou. Imagino que o filme de Damiani seja uma das crias de ‘Os Boas Vidas’ (I Vitelloni), de Federico Fellini, que é muito mais famoso. Não sei nem se é bom, mas estava lá no fundo da minha memória. Foi como abrir um baú. Existem filmes italianos da época, fim dos anos 50, início dos 60, que vi todos meio misturados em Porto Alegre. Da mesma fase é outra das minhas lembranças inesquecíveis no cinema – Laura Adani em ‘A Casa Intolerante’, comédia de Mauro Bolognini com Totò. Na segunda metade dos anos 50, a Itália atravessou uma crise de moradia. Vittorio De Sica fez ‘O Teto’ e Bolognini, ‘A Casa Intolerante’, para tratar do assunto. Na ficção de Bolognini (quem seria o roteirista, hein César?), uma família, depois de procurar casa por muito tempo, muda-se para uma enorme, que aluga a preço de banana. O que eles não sabem é que ali funcionava um bordel e reaparecem os antigos clientes, atraídos pelo fato de que o casal tem filhas belíssimas. O desfecho do filme é um discurso de Laura Adani, a mãe que põe a correr todos os caras – mas tem um sinceramente apaixonado, um jovem marinheiro. Seria capaz de repetir uma a uma as palavras de Laura, uma mãe tão impressionante como a Katina Paxinou de ‘Rocco’. Quando um dos caras para quem ela bate a porta na cara lhe pergunta – “O que vamos fazer?” – sua resposta é “Arranjem-se!” (‘Arrangiatevi’, é o título original do filme). Tem um monte de filmes novos que estou louco para ver, mas existem alguns antigos que também gostaria de (re)ver. Os chamados grandes filmes a gente sempre termina por assistir, mas os pequenos? Os pequenos filmes também fazem parte do imaginário da gente. Confesso que estou arrependido de ter dado o título de Damiano Damiani 2 a este post. Poderia, e até deveria, ser ‘Carrego comigo’.