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Luiz Carlos Merten

29 Fevereiro 2008 | 10h28

Felipe me deixou com a pulga atrás da orelha. Comentando o post sobre Monicelli, citou ‘Meus Caros Amigos’ e disse que só o 1 e 2 foram dirigidos pelo Monicelli. Corrijam-me, se estiver errado. ‘Meus Caros Amigos’, o primeiro, era um projeto sonhado do Pietro Germi, que escreveu o roteiro e já havia planejado o filme, mas ele morreu antes do início da rodagem, com elenco escolhido e tudo. Monicelli fez o filme como uma homenagem ao Germi, seguindo, escrupulosamente, todas as indicações do roteiro – e tentando aproximá-lo do estilo de humor do diretor de ‘Divórcio à Italiana’, ‘Seduzida e Abandonada’, ‘Confusões à Italiana’ – que ganhou, debaixo de vaia, a Palma de Ouro em Cannes – e ‘Como Viver com Três Mulheres’ (L’Immorale). O sucesso foi tão grande que os produtores exigiram uma seqüência, que o Monicelli fez, mas aí não havia mais roteiro de Germi e ele fez o filme que quis. Acho que foi até por isso que os distribuidores, em vez de dar o título brasileiro de ‘Meus Caros Amigos 2’, rebatizaram o filme como ‘Quinteto Irreverente’, para selar a diferença. De novo, o sucesso foi grande e aí surgiu ‘Caros F… Amigos’, com outro elenco e eu, sinceramente, me perdi. Não sei se houve um ‘Caros Amigos 3’. Acho que não, porque, se houve, eu perdi, mas enfim… Acho muito interessante esta abordagem do universo masculino. Os personagens são eternas crianças e esta é uma linha do cinema italiano que vem de ‘Os Boas Vidas’, do Fellini. O adulto que se recusa a amadurecer, caprichoso, priáprico, cínico, é uma figura fascinante e extrapola tal ou qual cinematografia. Aparece em todas. Ou vocês acham que ‘Os Cafajestes’, de Ruy Guerra, como drama, e ‘Os Machões’, do Reginaldo Faria, como comédia de costumes, não têm nada a ver com essa linha de cinema? Até comentei com o Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio. Assisti no avião (Air France), indo para a Europa – e revi na volta – o filme ‘Le Coeur des Hommes 2’, de Marc Esposito. O cara foi redator-chefe da revista ‘Studio’ e fez este filme sobre um bando de amigos, todos na faixa dos 40/50 anos e chegados a uma trepadinha fora de casa, mas apaixonadíssimos pelas respectivas mulheres. Para minha surpresa, achei o filme legal, muito bem interpretado (pelo Gérard Darmon, magnífico) e até falei para o Zanin. O cinema francês que faz sucesso no Brasil, fora o dos grandes autores, é o que trata de forma intimista de assuntos do cotidiano, e dos problemas do casal (‘O Gosto dos Outros’, ‘Um Lugar na Platéia’ etc). Pergunto-me por que nunca trouxeram o filme, ou os filmes – já que são dois –, do Esposito para o Brasil? Ou vão me dizer que o primeiro passou e eu também perdi? Na verdade, a gente vê muita comédia teen, muita comédia romântica, muito filme sobre mulheres, mas o universo masculino tende a ser abordado somente como ação e porrada. Achei bonito ver aqueles homens conversando, se abrindo uns para os outros. Me pareceu sincero, às vezes emocionante e sempre divertido. Os filmes fizeram, por sinal, grande sucesso na França. ‘Meus Caros Amigos’ fez escola.