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‘Carne Trêmula’

Luiz Carlos Merten

14 Março 2011 | 14h21

Celdani se admirou outro dia por eu admitir que pego filmes andando na TV paga e que, às vezes, por questões de compromissos, embarco na aventura sabendo que não vou poder ver até o final. Mas vejam se consigo me fazer entender. Pode até ser por vício ou deformação profissional. Hoje mesmo, estava na cabine da Warner em Alphaville e, enquanto esperava que terminassem de montar o filme que ia ver, assisti a cenas de ‘Invictus’, de Clint Eastwood, que passava no telão do lobby. Nunca curti tanto a partida decisiva, quando a seleção de rugby da África do Sul vence a da Nova Zelândia no último minuto. Ver o filme descontextualizado me desligou da história e eu pude apreciar melhor o ‘Potemkin’ do Clint. Esse é o espírito da coisa. Podemos discutir se o cinema é ou não uma arte narrativa, o que na maioria das vezes, para não falar quase sempre, ele é. Ligados na emoção da história, muitas vezes não temos foco nem atenção para os detalhes. Vendo a cena do filme de Clint me deu a ideia de usar o trecho na tal oficina, ‘Jornalismo de Cinema’, que ministro na quarta e não quinta, como pensava. A promoção é da Imprensa Editorial e o site, para quem quiser mais informações, é www.oficinasimprensa.com.br. Meninos (e meninas), aproveitando, quero dizer que ontem revi os 30 ou 40 minutos finais de ‘Carne Trêmula’, um Almodóvar que amo, adaptado de Ruth Rendell. Lembro-me que assisti ao filme pela primeira vez durante o Festival de Gramado, quando o evento, em crise de identidade, criou, à tarde, uma carteira de grandes pré-estreias internacionais. Andava numa fase de decepção com Pedrito. Depois de ‘Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos’ e através de ‘Ata-me’, ‘De Salto Alto’, ‘Kika’ e ‘A Flor do Meu Segredo’, me parecia que ele perdera o centro e ziguezagueava, meio que se repetindo. Algo se passou quando vi ‘Carne Trêmula’ e, embora reconhecendo a potência criativa’ de ‘Tudo Sobre Minha Mãe’ e ‘Fale com Ela’, tenho de admitir que até hoje tenho esse fraco pelo filme. A cena em que Liberto Rabal narra o que seria sua vingança para Francesca Neri – fazê-la gozar tanto que ela ficaria louca por ele -, mais do que excitação voyeurística, me produz uma genuína emoção. A mulher vive uma relação pela metade com o tetraplégico Javier Bardem. A fala de Liberto, obviamente, a excita – a proposta nela contida -, e Francesco Neri termina batendo à porta do cara. É uma das cenas mais belas do cinema, uma cena de sexo hetero filmada por um gay, que coisa maravilhosa que é o cinema, quando celebra a diferença. A cena começa com os movimentos da bunda de Liberto e prossegue com os corpos filmados de um jeito – torso contra torso, perna contra perna -, que fica difícil definir o sexo dos envolvidos. Aquilo é coisa de gênio e me emociona muito. Mas ainda tem mais – quando começam as contrações, a caminho do hospital, Liberto começa a falar com o filho, para tentar retê-lo mais um pouco no útero materno. A última frase de ‘Carne Trêmula’ – ‘Há 26 anos não temos mais medo na Espanha’, lembrando o fim do franquismo -, é de chorar. Puta filme. Todo mundo dá como fava contada que o novo Almodóvar estará na seleção de Cannes, em maio.  Espero entrevista-lo mais uma vez. Grande Almodóvar, deslumbrante ‘Carne Trêmula’!

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