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Luiz Carlos Merten

19 Agosto 2009 | 16h18

Há duas ou três semanas, pouco antes de eu embarcar para o México, meu amigo Otávio, da assessoria do Eurochannel, me enviou o DVD de dois especiais de uma série sobre diretores no canal europeu. Um sobre Marcel Carné e outro sobre René Clair. Perdi a chance de publicar o mínimo que fosse no ‘Caderno 2’ e até agora não sei se terão reprises (e, em caso afirmativo, quando). Ontem, dia 18, foi o centenário de Carné e eu de novo perdi a chance, mas a homenagem ao diretor prossegue hoje e amanhã na Cinemateca, que exibe três de seus filmes mais importantes – ‘Trágico Amanhecer’, ‘Os Visitantes da Noite’ e ‘O Boulevard do Crime’, o que me permite voltar ao assunto, esboçado pelo Mário Kawai num comentário no post ‘Ave, Dioniso’. Os três filmes são parcerias do cineasta com o roteirista Jacques Prévert. Adoro como Jean Tulard inicia seu verbete sobre Carné no ‘Dicionário de Cinema’. Vou citar de memória – ‘De tanto ouvir que na dupla que formava com Prévert a genialidade era do poeta, Carné terminou por acreditar. Daí as duas partes em que se divide sua obra – os filmes feitos com Prévert, todos obras-primas, e os outros, que são medíocres.’ Carné realmente carrega esta fama. Grande com Prévert, medíocre quando não trabalha à sombra do outro. A associação entre ambos tornou-os figuras exemplares do chamado ‘realismo poético’, movimento que irrompeu no cinema francês nos anos 30, pouco antes da 2ª Guerra. Carné foi apadrinhado por Jacques Feyder e fez seu primeiro longa com a mulher do prestigiado autor, Françoise Rosay. Foi sua primeira parceria com Prévert e se chamava ‘Jenny’, o nome da personagem. O tal realismo poético se fez pela junção de influências tão díspares que é um milagre que tenha dado certo – mistura o naturalismo literário de Zola (e até Flaubert) com o expressionismo alemão e a herança do cinema de gângsteres norte-americano. É um cinema que tem uma carga dramática muito grande e um visual igualmente carregado, com um certo artificialismo – ou preciosismo – da imagem que depois seria retomado pelo neon realismo, no auge do pós moderno, nos anos 80. Confesso, o que poderá ser motivo de espanto para vocês, que tenho certa resistência a ‘O Boulevard do Crime’ (Les Enfants du Paradis), apesar da pesquisa que apontou o filme como o melhor do cinema francês, em todos os tempos. Nunca vi ‘Trágico Amanhecer'(Le Jour se Lève) – ó lacuna – e nutro um sentimento ambivalente por ‘Os Visitantes da Noite’. O filme é uma alegoria desenrolada na Idade Média, sobre menestrel e sua amiga que chegam a castelo no qual um conde está se casando. O menestrel seduz a noiva e sua amiga, o próprio conde, ambos a serviço do Diabo, mas o amor da dupla é sincero e seus corações continuam batendo mesmo depois que são transformados em estátuas. Li, em algum lugar, em, algum momento, que, na concepção de Carné e Prévert, o Diabo seria Hitler e o filme (de 1942) nasceu com o objetivo declarado de ser uma denúncia do fanatismo. O problema é que o vi há muitos anos – muitos! – e sempre tive essa sensação de que a censura, na França ocupada, havia retalhado ‘Os Visitantes’, deixando o trabalho de Carné/Prévert um tanto confuso. Será? Há mais um filme de Carné sobre o qual gostaria de falar, ‘Cais das Sombras’, mas o post está longo. Continua no próximo.

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