Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Carlos’!

Cultura

Luiz Carlos Merten

29 Setembro 2010 | 12h42

RIO – Ando em êxtase aqui no Festival do Rio. Adorei o documentário de Georges Gachot sobre Nana Caymmi, ‘Rio Sonata’. Ela é uma personagem maravilhosa. Numa cena, jogando cartas, tem uma explosão –  ‘Me adoro cantando essa música!’ Nana fala de uma música composta pelo irmão Dori. Poderia ser uma coisa narcisística, insuportável. Achei genial e quando Nana lembra – e canta – ‘Acalanto’, no final, abri o berreiro. Ontem à noite, parei com tudo para ver ‘Carlos’. Em Cannes, havia visto um pedacinho do filme para entrevistar Olivier Assayas. Ontem, assisti à íntegra. A sessão começou às 6 da tarde – 18h10, porque houve apresentação de Ilda Santiago com o produtor Raphael Cohen. Com um breve intervalo – de 21h50 às 22 h -, ‘Carlos’ se prolongou até depois da meia-noite. Puta filme. Na entrevista, Assayas me havia dito que não teria feito o filme diferente, se fosse para cinema. Na TV, dispondo de mais duração, seu desafio era evitar a monotonia e, por isso, ele fez ‘Carlos’ com grande liberdade de tom – e estilo -, investindo numa trilha forte. Edgar Ramirez, ator venezuelano que faz o papel, é poderoso. Fodão. Tem uma cena de nu frontal, em que admira, narcisisticamente, o próprio corpo, mas ela não é gratuita. Remete a outra, depois, em que a inatividade deixa o personagem gordo como um porco. O filme é crítico em relação ao lendário terrorista, mas não o condena nem julga. Assayas não faz julgamentos morais. Numa cena, Carlos fala com o ministro saudita do petróleo, a quem sequestrou. Diz que vai mata-lo e espera compreensão. Faz uma análise, para o cara, do que ambos representam. Foram aliados no passado, o confronto agora é inevitável. O filme apresenta um extenso trabalho de documentação e reconstituição de época, mesmo que a vida de Carlos seja controversa e muita coisa, quase tudo, seja ficcional.  Neste sentido, chega a ser ‘viscontiano’, embora o estilo de Assayas, mesmo em seus filmes de época, como ‘Les Destinées Sentimentales’, não tenha nada a ver com o do grande Luchino. Mas aquela fala contribui para a sensação que tive. O filme é sobre o fim de uma época. A geopolítica muda e, com a derrocada do comunismo, o novo desenho de valores econômicos e estratégicos não se baseia mais na ideologia e sim, num jogo de interesses no qual um personagem como Carlos se torna obsoleto. Ele ainda tenta se iludir, mas termina tomando consciência disso. Gostei demais e só espero que Leon Cakoff e Renata de Almeida, que amaram ‘Carlos’ em Cannes, levem a íntegra do filme para a Mostra e não a versão reduzida de 150 minutos. Vocês merecem ver as mais de cinco horas do filme. Quero ver se alguém reclama, depois.

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato