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Luiz Carlos Merten

14 Fevereiro 2007 | 15h58

BERLIM – Liguei hah pouco para o jornal para falar de entrevistas, discutir tamanho de materia e o Dib Carneiro, meu editor, me disse com voz cavernosa que tinha uma noticia para mim. Morreu Carlos Coimbra. Convivi tanto com Coimbra na fase em que o entrevistava para o livro da Colecao Aplauso. Nao vou dizer que tenha ficado intimo, mas desenvolvi um carinho por ele. Volta e meia, nos ultimos tempos, pensava que tinha de ligar para o Coimbra, mas ia deixando… Foi a mesma coisa com a Nadir, mulher do Walter Hugo Khouri, sempre tao doce e carinhosa comigo. Dizia – tenho de visitar a Nadir, mas sempre surgia alguma coisa e eu nao ia. Nadir morreu e agora o Coimbra tambem morreu. Lamento nao ter cultivado mais a amizade dele. Nao era admiracao pelo grande artista, porque Coimbra nao foi um grande cineasta. Foi um artesao dedicado ao oficio, mas que tinha consciencia de seus limites. Foi foi importante, isso sim. Na verdade, foi quem criou a cosmetica da fome (sem saber), fotografando a cores, com rebatedores, no sertao. Achei muito interessante quando ele contou como encontrou o tom da fotografia de A Morte Comanda o Cangaco. Seu relato, no livro, eh fascinante. Queria chamar o livro de O Maquiador do Sertao, mas acho que nao gostaram, na Imprensa Oficial. Modesto como era, Coimbra foi um injusticado. Acusaram-no de se haver vendido aa ditadura militar, fazendo Independencia ou Morte! para ser o filme oficial do regime, quando se comemorava, em 1972, apos o tri do Mexico, o sesquicentenario da independencia. Coimbra sempre me dizia que nao, que o Dom Pedro dele se interessava mais por sexo do que pelo movimento para tornar o Brasil independente e que, na hora H, aas margens do Ipiranga, ele saia de tras da moita, puxando a calca (imagine o que estava fazendo) para gritar Independencia ou Morte. Nada disso, ele me dizia, sensatamente, podia ser considerado ufanista e tambem nao era produto do acaso. Era intencional. O que lamentava foi nao ter tido coragem de afrontar o sistema, quando se apropriou do trabalho dele, isso sim. Coimbra dirigiu alguns dos maiores sucessos de publico do cinema brasileiro. Os produtores ganharam rios de dinheiro com suas aventuras de cangaceiros. Ele vivia modestamente, num pequeno apartamento atulhado de coisas, num predio que jah conheceu melhores dias, na Av. 9 de Julho. Sempre me passou a impressao de ser um solitario. Nao quero ficar melodramatico, mas havia, juro, no Coimbra que conheci, alguma coisa do Umberto D do De Sica, ou pelo menos eu o via assim. Realmente, o Dib tinha razao. Ele sabia que ia ficar abalado. Me baixou uma tristeza.