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Cultura » ‘Caracol’, nas ‘Dobras do Tempo’

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Luiz Carlos Merten

02 Abril 2012 | 09h23

Passei alguns dias sem postar e estava meio aflito para voltar e corrigir o Severo, mas o Sidney já fez a correção. Havia escrito no post sobre o meu desapontamento porque o público saíra aos borbotões, no É Tudo Verdade, do documentário coreano ‘Planeta Caracol’. Fernando Severo entendeu errado – ia reler o texto para ver se me havia enganado -, pensando que a debandada era em relação a ‘Pina’, de Wim Wenders. No sábado à noite, fiquei muito feliz. O júri internacional do festival de documentários de Amir Labaki atribuiu seu prêmio ao filme de Yi Seung-jun, que tanto me encantou, como experiência estética e humana. A história de um cego e surdo coreano e que, consequentemente, também não fala. Ele tem essa mulher que é seu anjo da guarda – e, reciprocamente, ele a completa, em troca. Muito interessante o conceito do ‘casal’ e as juras que eles se fazem. Não fica claro se rola sexo, seria uma união ‘casta’, estruturada sobre conceitos de solidariedade e religiosidade que compreendo, mais que aceito, mas as duas figuras me cativaram. A mulher é pequena (anã?). Possui uma cabeleira negra, enorme. E ela fica penteando aqueles cabelos, o que criou um fetiche, para mim. Não consegui ver os vencedores da competição brasileira, o curta ‘A Cidade’, da gaúcha Liliana Sulzbach, e o longa ‘Mr. Sganzerla – Signos da Luz’, de Joel Pizzini. Liliana é gaúcha, acho até que minha filha Lúcia trabalhou um tempo com ela, não lembro. É autora de ‘Branco’, que, vale lembrar, é um dos curtas mais poéticos que já vi (sobre um menino também cego). Sobre o documentário do Pizzini, tenho de contar uma história. Era um dos concorrentes brasileiros que queria ver, mas confesso que também me atraíra, e sem maiuores informações, ‘Dobras do Tempo’, sobre a imigração japonesa no Brasil. No dia e hora marcados, corri para o CineSesc, à tarde. Parei para comer alguma coisa naq1uele grill do Conjunto Nacional e desci a Augusta voando. Peguei o ingresso, tomei um café e entrei quando as luzes se apagavam. Começa o filme eu penso comigo – ‘Que coisa mais esquisita essa narração do Joel, sobre o tempo.’ E aí me caiu a ficha. Eu não estava vendo ‘Mr. Sganzerla’. O in consciente me direcionara para ver ‘Dobras do Tempo’, do qual gostei e do CineSesc fui diretamente para a entrevista com os Faguindes, Antônio e Bruno, de ‘Vermelho’. Antônio Fagundes não deve ter entendido nada, ou pelo contrário entendeu tudo. Entrei, ainda sob o efeito de ‘Dobras do Tempo’, do qual gostei, querendo falar com ele sobre ‘Gaijin’, que havia feito, em 1980, com Tizuka Yamasaki. Terminei não vendo ‘Mr. Sganzerla’, do qual tenho agora uma cópia em DVD. No lobby do CineSesc, antes da premiaçlão, havia encontrado Helena Ignez, que me anunciou, toda feliz, que ‘Luz nas Trevas’ estreia em 4 de maio. É o filme que ela fez com base no roteiro que Rogério deixara pronto, retomando o personagem do ‘Bandido da Luz Vermelha’. Gosto muito do filme. Na sequência, ainda em maio, vai estrear ‘Signos da Luz’. Entendi que, tanto ela quanto Pizzini, me haviam dito que maio é o mês de aniversário – de quê, de quem? Fui pesquisar a data de nascimento e morte de Rogério Sganzerla e não bate. Poderosa Helena, mulher de Glauber e de Rogério. Revi outro dia na TV paga ‘O Padre e a Moça’. Não é segredo para ninguém que prefiro o Joaquim Pedro mineiro ao tropicalista. Curto mais ‘O Padre e a Moça’ e ‘Os Inconfidentes’ que ‘Macunaíma’, sorry, e vendo aquelas imagens, o negro amor de rendas brancas, me surpreendia como a jovem Helena era bonita, meu Deus. E ela virou uma autora respeitável. As mulheres de Rogério – e Glauber. Me encanta também Paula Gaetán e seu cinema plástico, sensorial, conceitual. ‘Mr. Sganzerla’ ganhou o prêmio do júri e o da crítica, da Abraccine, a associação de críticos de meu colega Luiz Zanin Oricchio (digo, da qual ele é presidente), no É Tudo Verdade. Estou muito curioso. Tão logo tenha visto o DVD, dou notícias aqui no blog, antes do lançamento. Sobre o É Tudo Verdade, vou deixar registrada uma reclamação que fiz para o próprio Amir Labaki. Entendo perfeitamente os motivos dele. O festival rola em São Paulo e no Rio. Para diminuir custos de transportes, as cópias não ficam indo e vindo aleatoriamente. Ele passa duas vezes, em geral em dias consecutivos, aqui ou lá, e manda as cópias adiante. A consequência é que vi filmes dos quais gostei – o ‘Dobras do Tempo’, ‘Cartas de Angola’ etc – mas sobre os quais não pude escrever porque as datas já se haviam ido. Mas reitero minha alegria pela premiação de ‘Planeta Caracol’. E lamento por toda aquela gente que abandonou a sala, impermeável à delicadeza do filme.