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Luiz Carlos Merten

24 Dezembro 2008 | 12h42

PORTO ALEGRE – Fiquei viajando no comentário de Carlos Quintão sobre ‘Old Yeller’, a velha produção da Disney, que ele postou a propósito de ‘Marley & Eu’, a que assisti ontem de manhã. Foi um estresse.Vi o filme aqui em Porto, numa cabine que a Renata Cajado, da assessoria da Fox, me arranjou às pressas – obrigado, Renata. Terminou quase às 13 horas e eu tinha o texto da capa de hoje do ‘Caderno 2’, que deveria enviar até às 14 horas. Ou seja, corri feito louco, mas deu tudo certo. Quintão admite que chorou com Marley. Me admiraria muito se não tivesse chorado. O diretor David Frankel estica a corda até o limite. É como se dissesse – se o tipinho não chorou até agora, esse vai ser o momento para pegá-lo. Por exemplo – as cartinhas das crianças, e mais não falo para que o espectador do filme não saiba como nem onde elas entram. Achei o filme uma boa adaptação do best seller de Paul Grogan. Dei-lhe a classificação de bom, porque acho bem feito, competente, mas com certeza não me parece um filme ‘bom’, de verdade. Nem sabia – desligado como sou – que era do diretor de ‘O Diabo Veste Prada’, mas o labrador é que nem a personagem da Meryl Streep. Passa feito um terremoto pela vida das pessoas – ambos são ‘destruidores’, cada uma à sua maneira -, mas quem sobrevive a Marley, como a Meryl, só tem a crescer. Tem coisas de que não gosto – o estilo clipado como Frankel visualiza a primeira crônica de Owen Wilson. Sempre que ele ‘acelera’ a narrativa, o filme me parece que perde, porque o legal é a convivência com Marley, os detalhes do cotidiano que, como diz o editor Alan Arkin, faz o sabor das crônicas de Wilson/Grogan. Acho interessante o partido do diretor, que, imagino, seja o do livro – que não li, embora seja ‘cachorreiro’ de coração e de direito -, ou seja, ele usa o cão para contar a história do casal, e vice-versa. Owen Wilson e Marley, ou os labradores (diversos) que fazem Marley, são a cara de um e o focinho dos outros. Owen foi uma escolha maravilhosa para o papel, tão ou mais doidivanas do que o cachorro. De Jennifer Aniston sou, me desculpem, tiete. Nunca vi ‘Friends’ e acho que ela faz sempre a mesma personagem, mas ninguém faz Jennifer Aniston melhor do que a própria. E ela ousa! Imagino que, no DVD, dará para congelar a imagem e ver algum detalhe da cena de nudez, quando ela salta na piscina. Exagero, mas ‘Jen’ é boa (eu acho). Gostei muito do ator (quem é?) e do personagem Sebastian. Acho que ele e Alan Arkin, como o editor, introduzem a ‘gravidade’ dentro do filme. Marley é a verdadeira alma daquela família. Como diz Jennifer, ele uniu a família antes mesmo que ela existisse. Sebastian, o galinhão, parece o oposdto do estabanado (e infantilizado) Grogan, mas no fundo o infantil é ele, que pode assumir os maiores desafios profissionais (como jornalista), mas se recusa a criar raízes e a amadurecer. Há algo de patético naquele eterno predador, um Casanova como o de Fellini (sem boneca mecânica). Alan Arkin somos nós, o senso crítico, cético, mas sim, por meio dele nós também dizemos que Grogan nos surpreendeu. E, gente, pode ser crueldade, mas adorei a cena da instrutora desmoralizada por Marley, que se recusa a aceitar o adestramento. A instrutora é Kathleen Turner, irreconhecível. Lembro-me como teve gente que reclamou quando Deborah Kerr recebeu seu Oscar especial. Velhinha, gagá, não parecia nem de longe o monumento que foi. Alguém até comentou na TV que Deborah não deveria ter ido à cerimônia, para não perturbar sua imagem no nosso imaginário. Bobsagem! Complexo de Greta Garbo? Todos temos direito de envelhecer, e achei lindo que aquela antiga deusa se apresentasse como era. Havia visto Kathleen quando foi jurada em Cannes, no ano em que o júri presidido por Quentin Tarantino outorgou a Palma de Ouro a ‘Farenheit 11 de Setembro’, de Michael Moore. Kathleen estava toda inchada, gorda, irreconhecível. Acho que foi Rubens Ewald quem me disse que ela sofria de artrite e ficou assim por causa dos medicamentos. Num certo sentido, Kathleen piorou, mas achei maravilhoso que a estrela sexy de ‘Corpos Ardentes’, ‘Peggy Sue – Seu Passado a Espera’ e ‘Crimes de Paixão’ – era assim que se chamava o filme de Ken Russell com ela no papel de China Blue, não? – dane-se para a imagem e se ofereça como espetáculo de uma cena cômica e irresistível. Gostei também da cena escatológica de Marley fazendo cocô na praia, com a intervenção da polícia. Wilson/Grogan diz que ele é o pior cão do mundo, mas aí, ao chegar em casa… Vejam ‘Marley & Eu’ e não se acanhem de chorar, como o Quintão. Eu confesso que também verti alguma lágrima. Afinal, antes da Angel, a buldogue da minha filha, tive o Bolinha, o Lóqui…