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Luiz Carlos Merten

13 Julho 2009 | 16h53

Estou aqui sem fazer nada, à espera da reunião de pauta do ‘Caderno 2’ – daqui a pouco. Aproveitei e entrei no site da 2001 para ver os lançamentos de DVD. O primeiro listado é justamente o DVD de ‘Imitação da Vida’, o clássico de Douglas Sirk, detestado por um monte de gente (mas venerado por Rainer Werner Fassbinder, por um sujeito chamado Lacan e por mim. Estou em companhia chique, não?) Falamos na semana passada do filme, que havia visto na TV paga, e nem sabia desse lançamento. Segui com a lista e encontrei um lançamento duplo – ‘Don Camilo’ e ‘A Volta de Don Camilo’, de Julien Duvivier, da Classicline. Duvivier foi talvez o caso mais notável de diretor francês de ‘qualidade’, daqueles que Godard & Truffaut execravam. Orson Welles o tinha na conta de mestre – Welles! – e Jean Tulard elogia vários de seus filmes no Dicionário de Cinema, com ênfase para ‘Pânico’, de 1946, que classifica como ‘obra-prima noir’. O filme é uma adaptação de Simenon, com Jean Gabin e Viviane Romance. ‘Don Camilo’ é de 1951 e ‘A Volta’, de 1953. Os filmes são co-produções franco-italianas que satirizam a vida política da Itália no pós-guerra. Fernandel faz o padre que vive em guerra com o prefeito comunista de sua cidade (Gino Cervi), mas a briga é só pública. Na verdade, se respeitam, admiram – e se unem sempre que os interesses comunitários assim o exigem. Esta idealização da Democracia Cristã agradava mais ao público do que aos críticos e, naturalmente, aos políticos, que se sentiam, com razão, ridicularizados. Sinceramente, não tenho registro de nenhum dos dois filmes. Não sei se os vi, ainda garoto, mas se isso ocorreu com certeza os esqueci. Esse lançamento me pareceu curioso. Em Paris, na volta de Cannes, quase comprei um livro que, na verdade, é um álbum de fotografias. Uma biografia de Fernandel exclusivamente pela imagem, sem outros textos que não as legendas. Fernandel pertence a uma época mítica da França. Gabin, Piaf, o jovem Montand, Charles Trenet, ele. Só que era, sem exagero, considerado o maior de todos. Durante pelo menos duas dfécadas Fernandel reinou no cinema francês. Havia começado com Renoir (‘On Purge Bebé’), mas o encontro decisivo foi com Marcel Pagnol. Fernandel tinha aquela inconfundível cara de cavalo. Lembro-me dele em ‘O Gângster’ e ‘A Vaca e o Prisioneiro’, ambos de Henri Verneuil (e o primeiro também com Gino Cervi), e no filme provavelmente mais bizarro de Jacques Becker, ‘Ali Babá e os 40 Ladrões’, no qual transformou seu personagem cômico num herói trágico. Vou me dar um presente que, espero, seja frutífero. Vou fazer esse programa duplo de ‘Don Camilo’. Quem sabe não teremos mais assunto, depois?