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Luiz Carlos Merten

12 Dezembro 2008 | 12h18

Saymon Nascimento e Mementum me perguntam ao mesmo tempo – os e-mails chegaram colados – se estou acompanhando a ‘Capitu’ de Luiz Fernando Carvalho, com a releitura que o mais famoso (erudito?) diretor da TV brasileira está fazendo da obra-prima de Machado de Assis, ‘Dom Casmurro’. Respondo com outra pergunta – como não ver? Nunca me entusiasmei muito com ‘Lavoura Arcaica’, mas Luiz Fernando me fez a deferência de permitir que eu visse sua adaptação de ‘A Pedra do Reino’ na íntegra. Chamou-me para um estúdio e lá fiquei eu vendo os episódios que ele retirou da obra de Suassuna, um após o outro, com uma concentração e uma unidade das quais o público que viu a ‘Pedra’ fragmentada na TV não dispôs. Talvez tenha sido por isso que gostei mais da ‘Pedra’ do que a média de meus amigos. Eles continuam irredutíveis no ‘Dia de Maria’. Deixem-me antes fazer um pequeno preâmbulo – ‘Dom Casmurro’ nunca teve muita sorte no audiovisual. “Dom’ tinha a Maria Fernanda Cândido, melhor atriz em Gramado, mas era um valor, digamos, ‘agregado’ a uma atualização banalizada – e medíocre – do romance. ‘Capitu’, com todo respeito por Paulo César Sarraceni, roteiro de Paulo Emilio Salles Gomes e Lygia Fagundes Telles, sempre me pareceu meio constrangedor – um embaraço como produção, pela excessiva pobreza, e também como tentativa de decifrar o famoso ‘enigma’ de Capitolina. E chegamos à ‘Capitu’ de Luiz Fernando Carvalho. O primeiro episódio me deu a sensação de salto sem rede. Muito operístico – Luiz Fernando tem Visconti, ‘O Leopardo’, em algum compartimento de seu cérebro, vejam-se as cenas com Eliane Giardini, mas a ópera, aqui é rock, mais para Sofia Coppola e sua trilha ‘moderninha’ de ‘Maria Antonieta’ -, muito artificioso. Mas eu sabia que era uma questão de tempo, que era mais uma questão de eu me acostumar com o tom – como em ‘A Pedra do Reino’ – do que imaginar que o diretor fosse se perder no meio do caminho. Adorei de cara esse velho e amargurado Casmurro que se debruça sobre suas lembranças. Michel Malamed tem uma máscara interessante – e que me remeteu à ‘Pedra’. Adorei os olhos de ressaca de cigana dissimulada de Letícia Persilles, tão parecida com Maria Fernanda Cândido, mas não estava gostando de Bentinho. Impliquei com César Cardadeiro, achei o guri inexpressivo, mas aí, no segundo capítulo, ocorreu o momento mágico – o beijo dos jovens enamorados que o velho Dom Casmurro tenta sorver com olho de voyeur, como uma madeleine impossível. A partir daí, fiquei fisgado. Ontem, por conta da chuva e do trânsito, vi só meio capítulo, mas peguei o desespero de Bentinho, flagrando o que lhe pareceu a primeira traição de Capitu. Estou gostando mais do César, já havia gostado na euforia do ‘Sou homem!’ As coisas ajeitam-se, como imaginei que ocorreria. O pior é que me arrisco a perder de novo, hoje. Tenho compromisso à noite e detesto deixar gravando. Tenho essa idéia boba de que TV é para ver na hora, todo mundo sintonizado, e não para resgatar depois.