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Luiz Carlos Merten

27 Julho 2011 | 10h01

Bertold Brecht fala em estranhamento, não em distanciamento crítico. Me pergunto se alguma fez ele disse a frase que lhe é atribuída – ‘Infeliz do povo que precisa de heróis.’ Já a vi descontextualizada e com o crédito da citação, mas, sinceramente, tenho minhas dúvidas. Brecht podia ser radical, podia buscar a consciência – contra a alienação dos sentidos –, mas não era burro. Sectário, talvez. Todos somos. Os gregos, que viram nascer (fundaram) a democracia e o pensamento lógico, nunca tiveram problemas em fazer coexistir deuses, semideuses e heróis. Saí ontem da sessão de ‘Capitão América’ com a cabeça martelando. Por que curto esses filmes de super-heróis? Por que tenho essa necessidade de ação? Meus sentidos exigem e eu não sou um espectador que assiste a filmes de aventuras e heróis inerte. Dou cada pulo na poltrona que, às vezes, eu próprio me assusto. Nem sei qual foi o último filme de arte a que assisti entediado, porque o que via na tela, no fundo, era bem previsível. E, depois, assim como não existem manuais explicando como se deve ver os filmes, o que nos motiva também não é sempre a mesma coisa. Por exemplo – por que gosto dos filmes de Joe Johnston? Me divirto com ‘Querida, Encolhi as Crianças’, adorei ‘Rocketeer’ e, apesar de todo o respeito que tenho por Spielberg – e da paixão que sinto pela trilogia formada por ‘O Terminal’, ‘Guerra dos Mundos’ e ‘Munique’ –, sou capaz de ir ao inferno para dizer que ‘Jurassic Park III’, o de Johnston, é muito melhor que o 1 e o 2. O começo de ‘Capitão América’ já me deixou nos cascos. Aquele garoto franzino que tenta se alistar para lutar na guerra, que apanha além do limite da própria resistência, mexeu comigo. ‘Capitão América’ foi criado, nos anos 1940, como parte do esforço de guerra. O risco de um personagem desses é ser patriótico, ufanista. Joe Johnston e seus roteiristas conseguiram fugir a isso. E, quando o cientista Stanley Tucci pergunta a Chris Evans se o que ele quer é matar nazistas, a resposta poderia estar no texto de uma peça de Brecht. Aliás, coisa mais impressionante – a tecnologia permite colocar o cavalão do Chris Evans naquele físico franzino. Ou será que a tecnologia foi empregada quando ele sai da máquina com aqueles (super)músculos? Joe Johnston homenageia Tarantino? O grupo que o Capitão América forma para caçar o vilão que ultrapassa o nazismo – e Hitler – para tentar dominar (ele!) o mundo, evoca o outro grupo que Tarantino formou em ‘Bastardos Inglórios’ ou será que fui eu que sentido isso? A amizade, o amor são temas que me encantam. E o herói, fiel ao que lhe disse Stanley Tucci, não muda ‘aqui’ (no coração). Há três anos, nas HQs, o Capitão América foi morto por um sniper na saída do tribunal, aonde fora julgado por assassinato. No filme, uma longa hibernação faz com que ele perca o encontro que teria sido decisivo. Não é uma invenção do cinema. Isso também ocorreu nos quadrinhos, mas é o que interessa a Joe Johnston. O diálogo que reúne a família, quando William H. Macy e Tea Leoni procuram o filho perdido no parque dos dinossauros, nunca parou de me encantar. Saltei do ‘Céu sem Eternidade’ para a fantasia de ‘Capitão América’ tentando conciliar os extremos.  A conciliação, no mundo atual, talvez seja a maior fantasia de todas. É um dos temas embutidos no ‘Céu’. No meu imaginário, um céu com eternidade é possível, por que não?