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‘Capitalismo, Uma História de Amor’

Luiz Carlos Merten

23 Janeiro 2010 | 10h08

Olá! Cá estou eu de novo de volta, em casa. Mas será por pouco tempo. Viajo amanhã para Minas, para o Festival de Tiradentes, e permaneço lá por alguns dias, antes de retomar o caminho da Europa, para ir ao Festival de Berlim e, depois, espero, Paris, para mais alguns dias. Vou começar pelo fim. Cheguei ontem pela manhã e corri ao jornal para fazer uma página sobre ‘Um Segredo em Família, incluindo entrevistas que fiz com o diretor Claude Miller na França, no Rendez-vous du Cinéma, e no Festival do Rio, e também com os atores Patrick Bruel e Ludivine Sagnier. Gosto do filme adaptado do livro de Philippe Grimbert, que se baseou numa história de sua família, abordando a Shoah – o Holocausto – por meio de um recorte bem intimista, mostrando seus judeus não como vítimas, embora eles o tenham sido, claro, mas como gente como a gente, que amava, mentia, traía. Na cena chave, uma mulher vinga-se do marido, à Medeia, mas será que ela está realmente se vingando? Depois do jornal, saí para resolver uns problemas, almoçar (mas já eram 4 da tarde!). Às 18h30 fui ver ‘Amor sem Escalas’, a comédia de Jason Reitman com George Clooney, que candidatou o ator para o Globo de Ouro, mas ele não ganhou, não? Sei de alguns vencedores – ‘Se Beber não Case’, Sandra Bullock, Meryl Streep, ontem meu amigo Dib Carneiro me disse quem ganhou como ator de drama, mas confesso que entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Sobre o filme, vendido como comédia, achei um drama, e bem depressivo, cujo personagem talvez pudesse ser incluído no documentário ‘Capitalismo, Uma História de Amor’, a que assisti em Paris e, neste caso, pode muito bem ser que eu tivesse morrido de rir com ele. Michael Moore é um grande manipulador, mas eu, no fundo, adoro que ele exista e tenha coragem, ou despudor, de mostrar coisas que são irrefutáveis, mas sobre as quais todos calamos. Por que, mesmo? Em nome da imparcialidade e da isenção jornalística? Do bom gosto? Ou simplesmente da sensatez perante o (abuso do) poder? Agora vou misturar as coisas, mas tem um momento em que Moore entrevista o editor do ‘The Wall Street Journal’ e o cara explica porque confia mais no capitalismo do que na democracia. Existem países democráticos que exibem os piores indicadores de qualidade de vida do planeta. Não é um sistema confiável, ele sugere. Moore pega uma fala de George W. Bush, um de seus alvos preferidos (sempre), em que o ex-ocupante da Casa Branca (xô!) diz que o capitalismo é o melhor sistema do mundo, da história. Moore, a esta altura, já mostrou o que fazem certas empresas dos EUA. Elas fazem seguros de vida em que são beneficiárias no caso de morte de funcionários. Escolhem mulheres, e jovens, porque são as que têm a maior expectativa de vida, mas, enfim, tragédias ocorrem e uma empresa ganha sei lá quantos milhões de dólares com a morte inesperada de uma jovem mãe, enquanto a família, os filhos, ficam descobertos. Et voilà! Moore vai às origens da ‘América’ e discute se a justificativa para o lucro está na Constituição, no Bill’s Right ou, antes disso, naquele grande livro, a Bíblia. Radicalizando, ele pega imagens de ‘Jesus de Nazaré’ e dubla o épico religioso de Franco Zeffirelli. Mestre, qual é o caminho para o Céu? E Cristo responde que é aplicando na Bolsa, terceirizando funções etc. Ri mais do que em ‘Amor sem Escalas’, mas, enfim, ‘Capitalismo, Meu Amor’ pode ser visto como comédia – uma espécie de comedia, pelo menos, o horror filtrado pela inteligência e pela poesia, que é a mais clássica de todas as definições de humor -, enquanto o novo filme de Jason Reitman é um drama. Ou, pelo menos, uma espécie de.