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Capitalismo selvagem

Luiz Carlos Merten

07 Setembro 2007 | 12h00

Não – não é o filme de André Klotzel com Fernanda Torres. É outra coisa. Imagino que os números sejam ruins e é por isso que, até agora, ainda não consegui obter o público exato de Cidade dos Homens, que estreou na sexta-feira passada. O que sei é que o filme de Paulo Morelli foi bem no Rio, mas está indo muito mal em São Paulo. É o segundo grande revés da O2, e em parcerias com a TV, já que Antônia, de Tata Amaral, que também virou série da Globo, não foi nada bem. Eu até me pergunto a origem da rejeição a esses filmes. Gosto mais de Cidade dos Homens do que de Antônia e acho muito interessante o enfoque que o Morelli dá à questão da paternidade, mas, pelo visto, sou só eu. Quero, de qualquer maneira, fazer uma ponte com O Pequeno Italiano, filme do russo (estreante) Andrei Kravchuk, que estréia hoje. O pequeno italiano do título é esse menino órfão – seu nome é Vanya – que vive em condições precaríssimas na Rússia pós-comunista e que o diretor filma como se fosse uma terra devastada. Vanya vive num orfanato que é uma sucursal do horror, coisa de transformar a Inglaterra de Charles Dickens, em Oliver Twist, numa representação do paraíso infantil (e vocês sabem que não é o caso). Enfim, surge o casal italiano que quer adotar Vanya – a Rússia virou uma encubadeira de órfãos para exportação –, mas ele não quer ir e se lança à procura da mãe, como o garoto de Cidade dos Homens busca o pai. Acho que o Kravchuk faz o Vanya buscar a mãe para construir uma metáfora da pátria, já que o conceito era muito forte no cinema soviético. Em pleno realismo socialista, os personagens falavam na Mãe Rússia e sempre entravam sinos de fundo, para destacar a importância do que estavam dizendo. Agora, o país foi para o brejo. Pode-se fazer também uma ponte entre O Pequeno Italiano com Still Life, ou Em Busca da Vida, do chinês Jia Zhang-ke, e o que me impressiona, vendo esses filmes, é a constatação de que a derrocada do comunismo não levou a uma consolidação da democracia – nem na China nem na antiga URSS – e sim, a uma vitória acachapante do capitalismo selvagem. Tudo bem, é a vida. Não se pode ir contra a globalização. Antes que me acusem de comunistinha, de ir contra a marcha da história, quero só dizer que não me parece que as coisas tenham mudado para melhor. E a terceira via? Um outro mundo tem de ser possível.