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Luiz Carlos Merten

05 Abril 2010 | 12h35

RIO – Olá, pela procedência vocês já sabem onde ainda estou. Digo ‘ainda’ porque deveria ter regressado ontem a São Paulo, mas vivi o caos do aeroporto Santos Dumont, que fechou para pouso e decolagem, alegadamente por condições climáticas, mas nem a chuva nem o vento estavam (ou pareciam) exagerados. Depois de esperar em meio à maior confusão – 30 e tantos vôos foram cancelados, os outros foram remanejados para o Galeão -, corri para a Rodoviária, na esperança de deixar o Rio de ônibus. O caos era maior ainda, com fim de feriadão, muita gente chegando e partindo e quase nada de táxis para atender àquela multidão. No aeroporto, um cara havia mostrado a capa da ‘Veja’ desta semana, sobre o caos nos aeroportos, culpou o Lula, não sei se tese dele ou da revista, mas não vi ninguém aplaudí-lo. Ouvi, isso sim, um ‘Cala a boca, babaca’, mas o fato é que o caos nos aeroportos atinge a classe média e isso ‘nos’ preocupa. Já o da Rodoviária é o feijão com arroz, atinge o povo – os ‘pobres’ -, e eu mesmo só estava lá na expectativa de conseguitr uma passagem de ônibus para voltar dormindo e chegar hoje de manhã aí em São Paulo. Dormi no Rio e estou na sucursal, redigindo minhas matérias do dia, antes de tentar regressar, à tarde. O que me trouxe à Cidade Maravilhosa foi a visita ao set de ‘Tropa de Elite 2’, que José Padilha abriu somente ontem, faltando poucos dias para o encerramento das filmagens (na sexta-feira). Pretendo falar mais sobre este set, e o Padilha, agora estou só dando notícias. Não resisto a antecipar que a cena que vi filmada foi com Irandhir Santos, do qual já havia gostado muito no ‘Besouro’, onde ele fazia o oponente do herói. Irandhir faz agora Fraga, antagonista do ‘Coronel’ Nascimento (Wagner Moura foi promovido, mas não é, como você deve ter lido por aí, secretário de Segurança). Todo mundo – Padilha, o fotógrafo Lula Carvalho, o montador Daniel Resende, que acompanha a filmagem, a assessora Cláudia Belém – me dizia que esse cara é gênio. Fraga é inspirado num personagem real, Marcelo Freixo, e a cena em questão reproduz uma fala recorrente de Marcelo, a conta perversa, na qual ele mostra que o Estado brasileiro gasta oito vezes mais para manter um preso no sistema carcerário do que para dar educação a uma criança. Na cadeia, o sujeito aprende a se tornar pior como pessoa (e como ‘criminoso’) e o detalhe é que a população carcerária não para de crescer. Dobra a cada oito anos, ao contrário da população em geral, que dobra a cada 50. A persistirem esses números, em 2081 o Brasil terá 570 milhões de habitantes e 510 milhões de encarcerados. São números, impressionantes, por certo, e a exposição de Irandhir era tão forte que eu não conseguia desgrudar o olho do cara nas várias vezess que ele repetiu sua fala. A cena estava sendo filmada como plano sequência, que Padilha e o montador Daniel Resende vão ‘desmontar’ (ou desconstruir) depois. E era uma fala imensa – 4 minutos -, que ele desenvolvia movendo-se no auditório do auditório do Palácio Gustavo Capanema, obra-prima de Oscar Niemeyer que, como várias obras do grande arquiteto, é inabitável. O calor era infernal, agravado pelos refletores, e o poderoso Irandhir falava num tal 3º Congresso de Direitos Humanos. O público, os figurantes, o seguia com os olhos, e ria de suas observações humoradas e eu ali, tantalizado por ele, por seu carisma, como toda aquela gente. É um desafio e tanto, o de Padilha. Fazer um ‘Tropa 2’ tão bom ou melhor do que o 1. Ele está relaxado. Mal comparando, mas lembrei do Coppola e da saga do ‘Chefão’. Não é porque Padilha esteja se achando, mas ele considera o ‘Chefão 2’ melhor que o primeiro. E se o ‘Tropa 2’ for melhor? O tema agora é a milícia, que Padilha usa para discutir o papel e a responsabilidade do Estado brasileiro no combate à corrupção e à criminalidade. O Brasil, paraíso da impunidade? Não nesses presídios que dobram sua populaçãop a cada oito anos. Talvez numa outra faixa social. ‘Tropa 2’ promete polêmica. Fiquei nos cascos, como se diz.