Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Cão sem Dono

Cultura

Luiz Carlos Merten

13 Março 2007 | 12h01

Estou postando estes textos, mas não é para cobrar sucesso de bilheteria. Acho interessante discutir essa questão do mercado, mas não ficar escravo dela. Vejam o caso do Beto Brant. Não tenho aqui os números, mas levei um choque quando, falando com a produtora dele, a Bianca me disse que os filmes do Beto, mesmo os de maior sucesso, como O Invasor, ficam na faixa dos 100 mil. Achava que O Invasor tivesse feito uns 400 mil, sei lá. Não é segredo para ninguém que não gosto muito de O Invasor e de Crime Delicado, então, não gosto nada. Independentemente disso, acho o Beto um caso muito interessante. Gosto de Os Matadores, um pouco menos de Ação entre Amigos, gostei de Cão sem Dono. Já tinha gostado do roteiro, ao participar da comissão da Petrobrás que o aprovou. Era um dos meus favoritos, com o de Meu Pé de Laranja Lima, de Marcos Bernstein (que acho que dá um filme lindo, no estilo de O Corvo Amarelo, de Heinosuke Gosho); o do novo filme do Jorge Furtado, Saneamento Básico; o documentário sobre o sertão de Karin Aïnouz e Marcelo Gomes; e o único que não foi aprovado, o de Vórtx, de Eduardo Valente. Acompanho esse projeto desde que foi submetido a outra comissão de que participei, a de desenvolvimento de roteiro. Acho que, pelça própria natureza do projeto, não se pode cobrar de Vórtex um roteiro detalhado, mas vale arriscar num filme que parece ousado e num diretor que, tendo sido premiado em Cannes (por um curta), tem lugar garantido na seleção de longas do maior festival de cinema do mundo. Falo de Cannes, mas acho que Vórtex merece ser feito não porque vai passar lá, mas porque eu, pelo menos, tenho curiosidade de saber no que vai dar. Achava, honestamente, que Cão sem Dono seria um filme mais interessante do Beto Brant. Acho, inclusive, que ele absorve coisas de Crime Delicado. Sem o filme anterior, Beto talvez não chegasse a este. Aquele pintor de quadros que produzem estranhamento, a garota com a perna em repouso, com a perna enfaixada, tudo isso parece estranhamente próximo de Crime Delicado. E tem o tema da invasão – a garota que invade a vida desse cara, que tem aquele cão, a quem trata como da rua. Ele próprio, claro, é outro cão sem dono. Tem a doença, a morte. Gostei do método do filme, mais até do que do resultado. Cão sem Dono se integra numa nova vertente do cinema brasileiro. O Céu de Suely, o filme do Paulo Caldas, Deserto Feliz, o do Beto, são filmes sobre o mínimo, no qual não acontece muita coisa. Não são filmes narratiovos, preocupados com a história. A prostituta de Deserto Feliz vive cantando aquela música que diz que a vida vai levá-la e o filme vai indo, meio assim, como quem não sabe direito aonde chegar. Há muita conversa que parece fiada em Cão sem Dono, mas as conversas vão aprofundando certos temas. Gostei e quando digo que o método me atraiu mais que o resultado foi por uma sensação que tive. Achei Cão sem Dono um filme de transição para algo que ainda está por vir na carreira do Beto, como Crime Delicado, agora ficou claro, também me trouxe agora a este. Cão Sem Dono foi filmado em Porto Alegre, com boa parte da equipe de lá – barbaridade, tchê! Gauchada boa! Estréia em Porto em maio e depois, em junho, vem para Rio e São Paulo. Aguarde, que eu estou indo além e já estou guardando o próximo.