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Luiz Carlos Merten

15 Dezembro 2009 | 10h26

Fui ver ontem Cauby Peixoto no Bar Brahma. Fomos – uma turma grande do jornal. Dib Carneiro, João Luiz Sampaio, Francisco Quinteiro, Eliana Souza, Regina Cavalcanti, Maria da Glória Lopes e eu. Juntaram-se a nós a Débora, repórter da Sônia Racy, e a Elaine. Foi uma experiência e tanto. Já havia visto Wanderléa, também no Brahma, num show da jovem guarda e havia sido divertido ver Leila Reis fazendo cover da ‘diva’ em seu grande hit, ‘Senhor juiz/pare agora…’ (e a Leila imita direitinho a mão da Wandeca, quando impede o casamento). Mas o Cauby foi outro departamento. O que mais me havia impressionado no show de Bethânia foi o fato de ela manter integralmente sua voz, cantando com uma potência e uma sonoridade que me deixavam embasbacado. Bethânia deve estar nos 60 (não?), como faz para manter aquela voz? Cauby, aos 80 e tantos, ainda tem uma voz impressionante, mas ele não segura mais um show por muito tempo. E canta picotado, meio que fazendo pout pourri de seus grandes sucessos. Mas o show foi maravilhoso. Posso estar dizendo besteira – espero que não –, mas Cauby se inscreve numa longa tradição de crooners. Em alguns momentos, na maneira de colocar a voz, de repetir as palavras fazendo o próprio eco, enquanto a plateia cantava, Cauby me lembrou Miltinho, que fez sucesso no rádio e no disco, mas era, essencialmente, um cantor de boate. Aquele domínio de palco e plateia é produto de muita estrada. Vivi ontem diferentes experiências de religiosidade, primeiro no filme de James Cameron, ‘Avatar’, depois no show do Brahma, onde a plateia mantém uma relação de devoção com Cauby. Ele já entra cantando, cercado de seguranças, porque todo mundo, homens e mulheres, querem tocá-lo, como se fosse uma relíquia ou divindade. E é. Cauby é um sobrevivente, um vencedor. Nelson Hoineff, dos polêmicos ‘Caro Francis’ e ‘Alô-Alô, Terezinha’, está fazendo um documentário sobre ele. Versará sobre o quê? Hoineff tem usado esses destinos individuais – Paulo Francis, Chacrinha –, para falar sobre TV e o País. Muita gente reclamou do seu olhar sobre a decadência das chacretes, mas é um olhar de amor. Ontem, no palco do Brahma, viajei. Lembro-me de quando era guri, em Porto Alegre. Era o fim da era do rádio, que logo seria substituído pela TV, como grande veículo de comunicação, mas eu ainda peguei o ‘Clube do Guri’ e o programa de Maurício Sobrinho, na verdade, Maurício Sirotsky Sobrinho, antes de virar o megaempresário de comunicação que solidificou o grupo RBS no Rio Grande do Sul. Sou de uma época em que o respeito pela chamada diversidade sexual era nulo. A homofobia corria solta, muito mais do que hoje. O sujeito, para ser ‘viado’, com todo respeito, tinha de ser muito macho para segurar a onda. Cauby era alvo de chacota e acho até que foi para designar suas fãs que surgiu a expressão ‘macacas de auditório’. Entre altos e baixos, ele enterrou ou, pelo menos, silenciou seus detratores e hoje, como Dercy, a velha (e maravilhosa) desbocada, virou uma unanimidade. Cauby, aos 90, não tem mais sexo. Ele oferece seus standards – ‘New York, New York’, ‘Granada’ -, mas, como romântico incurável, canta o amor, canta Roberto – ‘Por que me arrasto a seus pés/ por que me dou tanto assim? – de uma maneira tão visceral que o público de coroas, literalmente, surta. Quem nunca se arrastou que atire a primeira pedra. E Cauby termina de cantar em alto estilo – ‘My way’. Cauby viveu, vive a vida dele do seu jeito. Goste de mim quem quiser gostar, eu sou assim, é como se ele dissesse (e o público ama). Corri ao lugar em que Cauby ia passar, na saída de cena, porque queria ver sua expressão. Cercado de seguranças, mais uma vez, com aquela cabeleira cacheada acaju, ele parecia mais frágil que no palco e olhava para as pessoas com uma espécie de perplexidade. Já disse que sou muito atraído por essa relação do público com as celebridades. No outro dia, Ronaldo Fenômeno levou a redação do ‘Estado’ à loucura. Ronaldo também teve altos e baixos, foi alvo de chacota, mas é o ‘fenômeno’. Cauby não deixa de ser outro fenômeno. E ele permanece um velho cavalheiro ‘indigno’. Minha sensação ontem no Brahma era de estar vendo um artista, um grande e verdadeiro, um p… artista. Segunda-feira que vem tem mais. As segundas são sempre de Cauby, no Brahma, há anos.