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Cannes!(9)/Minha Bíblia cinematográfica

Luiz Carlos Merten

17 Maio 2015 | 20h35

CANNES – Vocês sabem que não tenho mais a menor paciência co0m Martri9n Scorsese, que virou um diretor medíocre para críticos medíocres como ele e que acham que fazem a diferença. Por mim, Martry teria se aposentado e virado crítico. Seria hoje dos bons. Tive hoje mais uma prova disso. Estava curioso para ver quem iria apresentar a sessão de Rocco e Seus Irmãos em Cannes Classics. Imaginava que Claudia Cardinale, sim, mas Alain Delon… No ano passado, Delon apresentou a versão restaurada de O Sol por Testemunha e disse que René Clément foi seu mestre. Comecei a achar que ele não viria para dizer a mesma coisa de Luchino Visconti. Quem apareceu no palco da Sala Buñuel com Claudia foi Benicio Del Toro. Ele começou dizendo o óbvio – Hi, sorry, but I’m not Alain Delon. E leu (mal) uma carta de Martin Scorsese. No final da sessão, Scorsese apareceu num depoimento gravado. O mesmo texto da carta, mas agora dito com competência – e sentimento. Vi todos os filmes da competição do dia, fiz entrevistas, pela manhã e à tarde, almocei e jantei. E, dentro disso, encaixei as 3 horas de Rocco. Não perderia por nada o clássico de meu amado Visconti, meu filme preferido. OK, nem todo o mundo é obrigado a amar Rocco como eu, mas como não ter curiosidade para ver a nova versão do filme restaurada em 4K? Onde andava a brasileirada? Não encontrei ninguém. Passaram-se 55 anos – 55! – e Rocco não perdeu nada de sua força. Revendo-o hoje, cheguei à conclusão, talvez exagerada, de que quando Delon/Rocco sai do quartel e encontra Annie Girardot/Nadia, que saiu da cadeia, e ela o convida para um café, aquele diálogo, sozinho, para mim, vale pelos 120 anos do cinema, que vão se completar em dezembro. Saí de Rocco em choque/êxtase e entrei na sessão do Joachim Trier, Mais Forte Que as Bombas, que me pareceu bem um filme desses tempos de crise. Isabelle Huppert como uma fotógrafa de guerra sempre pronta a se arriscar para denunciar a violência do mundo, mas incapaz de encarar a m… de sua vida familiar. Não achei ruim, mas com a cara do politicamente correto que assombra o cinema dos EUA e da Europa na atualidade. O Gus Van Sant, execrado por meio mundo, me disse muito mais. Hávia uns 20 anos que não conversava com Gus, desde, acho, a última vez que fui a Veneza, no começo dos anos 1990, e ele estava lançando suas Cowgirls. Tenho de agradecer à Mariana, da Sony, por essa meia-hora. Falamos do filme, The Sea of Trees, mas também da admiração dele por Wim Wenders e Bela Tárr. Gus contou-me que está indo a Sarajevo justamente para encontrar Bela Tarr. Disse-lhe que ia ver Rocco, e ele quis saber quais seriam as legendas. Achava que seriam em francês, e foram, mas com o acréscimo da legendagem eletrônica em inglês. Se fossem em inglês, achei que ele teria ido. Senti-me culpado. Todo mundo merece ver um Visconti daqueles na vida. Meu amigo Dib Carneiro vive dizendo que eu devia publicar um livro com minhas entrevistas em  eventos nacionais e internacionais. Essa com Gus Van Sant com certeza iria para esse livro hipotético.