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Cannes!(32)/Matéria para reflexão

Luiz Carlos Merten

24 Maio 2015 | 21h19

CANNES – Cá estou de volta ao hotel, preparando as malas para viajar pela manhã para Paris. Jantamos, um grupo de brasileiros, no Caffé Roma – Orlando Margarido, Mariane Morisawa, Rodrigo Salém… Xiii, vai pegar mal do lado de lá. Pode não ter sido a premiação dos meus sonhos, mas, no limite, esses irmãos Coen me saíram melhor que a encomenda. Premiaram os filmes que eu queria, não exatamente nas categorias que esperava, mas só The Lobster não entrava nas minhas expectativas (e eu estava certo de que Ethan e Joel iam abraçá-lo). Preferia que Chronic, de Michel Franco, ou O Filho de Saul, de Laszlo Nemes, tivessem ganhado a Palma de Ouro, mas, além de gostar de Deephan – e de Jacques Audiard -, adorei o agradecimento dele. Audiard fez graça, dizendo que agradecia a Michael Haneke por não haver filmado este ano. Citou seu pai, Michel Audiard. Para mim, este ano foi simbólico. Ver Serge Toubiana – ex-toujours? – Cahiers du Cinema, aplaudir de pé Z, de Costa-Gavras, me encheu  a alma. Por volta de 1970, Cahiers desautorizava o cinema político de Costa – e de grandes diretores italianos – dizendo que eram ‘reformistas’. Esse pobre Toubiana já aplaudiu há dois anos, em Cannes Classics, O Sol por Testemunha, de René Clément, diretor que François Truffaut amava odiar na fase de capa amarela de Cahiers. Hoje, à frente da Cinemateca Francesa. Toubiana desenvolveu um olhar mais tolerante para a diversidade do cinema. Não entendo o ódio dos coleguinhas por Maïwenn. Seus filmes são intensos e viscerais, desequilibrados, e por mais que ela deteste o papo ‘mulher na direção’, existem coisas em seus filmes que homem nenhum iria encampar. Emmanuelle Bercot – a personagem – goza na cama com Vincent Cassel e chora, assumindo sua sexualidade ardente. Mon Roi! Conta que o ex reclamava de sua vagina ‘larga’. Cassel retruca que larga coisa nenhuma, o p… do cara é que era pequeno. É vulgar, mas tenho para mim que mulheres emancipadas, modernas, podem muito bem levar essa conversa. A maior crítica que se fazia à seleção deste ano era em relação aos franceses. Cinco filmes entre os 19 da competição, mais um na abertura e outro no encerramento, ambos fora de concurso, os números pareciam despropositados. Além da Palma para Audiard e do prêmio de melhor atriz para Emmanuelle Bercot, o júri premiou Vincent Lindon como melhor ator por La Loi du Marché, de Stéphane Brizé. O filme mais engajado, à’esquerda”, deste ano. Será precioso voltar outras vezes, muitas?, ao tema do Festival de Cannes deste ano. Estou louco para ver como a imprensa cotidiana francesa vai reagir. Amanhã eu conto. O curioso é que os Coen atravessaram o Atlântico para premiar um autor francês de blockbusters – De Battre Mon Coeur s’Est Arreté, Um Profeta, Ferrugem e Osso, todos fizeram mais de um milhão de espectadores, às vezes quase 2 milhões, cada. A avaliação crítica do 68.º festival de Cannes passa também por aí.