Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Cannes Classics

Cultura

Luiz Carlos Merten

19 Abril 2008 | 19h13

Ainda não contei para vocês, mas ao entrar no site oficial de Cannes – www.festival-cannes.fr – descobri que a abertura oficial da mostra ‘Cannes Classics’ deste ano vai ser gloriosa. Todo ano é, e eu me desdobro para ver o maior número de filmes possível, mais os da competição oficial, as entrevistas de que não abro mão e alguma pescada do que me parece mais interessante em outras mostras (Un Certain Regard, Quinzaine des Réalisateurs, Semaine de la Critique). Mas Cannes Classics é uma coisa do coração. Nos últimos anos, Cannes têm sido a vitrine em que são exibidos grandes filmes ameaçados de destruição e que são restaurados mediante os mais avançados processos que a moderna tecnologia fornece. A Cinemateca de Bolonha tem sido uma grande parceira de Cannes, a de Turim e graças a elas – e ao American Film Institute e ao Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, entre outras entidades e associações – tenho podido ver inúmeros filmes que eram dado como perdidos (ou quase), justamente em Cannes Classics. Alguns me decepcionam – ‘Suspiria’, de Dario Argento, por exemplo -, mas em geral vejo esses filmes antigos em êxtase. A abertura de Cannes Classics deste ano vai exibir a versão restaurada de ‘Lola Montàs’, de Max Ophuls, com Martine Carol e Peter Ustinov. O próprio filho do grande diretor – Marcel,documentarista visceral de ‘Le Chagrin et la Pitié’ – responsabiliza-se pela restauração. Max Ophuls, cineasta romântico, da valsa, fez este filme como uma súmula do seu cinema, mas os produtores não entenderam, ou não gostaram, e o filme foi barbaramente remontado em 1957. Max, que já não vinha bem de saúde, morreu em seguida e os críticos/cineastas da nouvelle vague (e de ‘Cahiers du Cinema’, na fase de capa amarela), radicais defensores do cinema de autor, diziam que ele morreu de desgosto. Mais de 50 anos depois – 51, uma boa idéia -, Marcel Ophuls parece ter chegado o mais próximo possível do que seria a versão sonhada por seu pai, resgatando cenas que eram dadas como perdidas. O triste é que muitos desses filmes restaurados por Cannes Classics passam somente lá, ou em outros festivais. Raros chegam ao circuito. Que pena! Adoraria que vocês vissem,, como eu vi, ‘Il Posto’, de Ermanno Olmi; ‘Doze Homens e Uma Sentença’, de Sidney Lumetr; e ‘Caminhos Ásperos’ (Hondo), de John Farrow, em cópias zero-bala. O último, então, foi projetado no ano passado, na homenagem a John Wayne, em terceira dimensão. 3-D! Coisa mais maravilhosa.

Encontrou algum erro? Entre em contato