Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Cannes Classics

Cultura

Luiz Carlos Merten

29 Abril 2009 | 15h12

Não quero mais ver os filmes da competição oficial em Cannes. Brincadeirinha, mas pirei ao ver agora a lista do que reserva a edição deste ano de Cannes Classics. É a seção do festival que exibe só obras-primas restauradas. Martin Scorsese é o padrinho e olhem só – ‘A Aventura’, de Michelangelo Antonioni, cópia zero bala (Monica Vitti, numa cena do filme, é a imagem no cartaz); ‘Quando Explode a Vingança’ (Giu la Testa), de Sergio Leone; ‘Longe do Vietnã’, clássico em episódios de Joris Ivens, Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Chris Marker, Claude Lelouch etc; ‘Ver-Te-Ei no Inferno’ (o sublime ‘The Molly Maguires’), de Martin Ritt; ‘O Demônio das Onze Horas’ (Pierrot le Fou), de Godard; ‘Sedução da Carne’ (Senso), de Luchino Visconti; ‘Príncipe Yeonsan’, de Shin Sang-ok, sobre o qual eu ouço falar há ‘trocentos’ anos que é o clássico dos clássicos do cinema coreano; ‘As Férias do Senhor Hulot’, de Jacques Tati; ‘Meu Passado Me Condena’ (Victim), de Basil Dearden, com Dirk Bogarde, um dos raros filmes sobre o qual se pode dizer que realmente mudou a história (a história do homossexual vítima de chantagem repercutiu tanto na Inglaterra do começo dos anos 60 que derrubou leis restritivas que datavam da época da rainha Vitória); ‘Pelos Caminhos do Inferno’, de Ted Kotcheff; e ‘Les Yeux sans Visage’, de Georges Franju.
Três ou quatro desses filmes justificariam que o cinéfilo fizesse de joelhos o caminho de São Tiago, mas tem mais. O Festival de Cannes homwenageia o centenário de nascimento de Joseph Losdey exibindo a versão restaurada de ‘Estranho Acidente’ (Accident), de 1967, com roteiro de Harold Pinter e interpretações de Dirk Bogarde, Stanley Baker, Jacqueline Sassard, Delphine Seyrig e Michael York. Sobre Losey, e desviando um pouco do assunto do post, Antônio Gonçalves Filho me disse há piouyco que saiu em DVD ‘O Homem Que Veio de Longe’ (Boom!), do começo dos anos 70, com o casal Taylor/Burton, adaptado de ‘The Milk Train Doesn’t Stop Here Anymore’, de Tennessee Williams (e o filme, até onde me lembro, tem um visual do outro mundo; filmagens em romqa e na Sardenha, fotografia de Douglas Slocombe, direção de arte de Charles MacDonald). De volta a Cannes Classics, dois documentários prometem bastante. Cannes comemora os 50 anos da nouvelle vague exibindo ‘Les Deux de la Vague’, de Antoine de Baecque e Emmanuel Laurent, sobre Godard e François Truffaut, lembrando que ‘Os Incompreendidos’ (Les 400 Coups) foi premiado pelo festival em 1959 (melhor direção). O outro documentário resgata Pietro Germi. ‘Il Bravo, Il Bello, Il Cattivo’, de Claudio Biondi, precede o relançamento nos cinemas, na Itália, da versão restaurada de ‘Confusões à Italiana’ (Signore i Signori), que dividiu a Palma de Ouro de 1966 com ‘Um Homem, Uma Mulher’, de Claude Lelouch, e até onde me lembro Germi, irritado com as vaias, fez o gesto de mandar a plateia àquele lugar. Digam-me: com essa seleção em Cannes Classics, não dá vontade de só ficar revendo os clássicos?

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato