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Cannes, campo de batalha?

Luiz Carlos Merten

20 Maio 2009 | 07h58

CANNES – Confesso que estou meio em choque. Meio? Assisti ontem ao novo Resnais, que estava me parecendo o melhor filme do mundo. Lars Von Trier usou de recursos baixos para fazer barulho na Croisette. Sexo explicito, clitoris decepado, penis esguichando sangue e, no meio de tudo isso, a historia de um casal em crise e a reflexaoh sobre o Diabo, e naoh o bom Deus, que no limite pode ter criado o homem. Resnais veio com `Les Herbes Folles`, adaptado de `Incident`, para mostrar que um filme pode ser feito com rigorosamente nada. O `incidente` eh o mais banal possivel, como, alias, deixa claro o narrador. Uma mulher sai para comprar um sapato, sua carteira eh roubada, um homem a encontra, cria-se uma `situacaoh` entre ambos. Ele estah cansado da vida, do casamento e vislumbra algo na relacaoh com essa mulher. O filme eh tudo e eh nada e no final o grande diretor sinaliza para o fim, realmente, de tudo. Bum! Nem em seu classico sobre a bomba atomica, premiado em Cannes hah 50 anos – `Hiroshima, Meu Amor` -, Resnais foi tah derrisorio. Ele trabalha na filigrana. O filme encanta, como sempre, mas depois desconcerta. Ainda estava sob o efeito do choque `Resnais` quando vi agora de manhah o novo Tarantino, `Inglorious Basterds`. Preciso contar em detalhes, mas naoh agora, o que foi a odisseia para assistir a sessaoh. As 8h15, o palais jah estava lotado e, sei lah, 500 jornalistas fomos desviados para a sala do 60eme, onde comecou uma batalha para ver quem entrava. O filme de guerra de Tarantino passa-se na Franca ocupada pelos nazistas e rende homenagem a um icone do cineasta, Enzo G. Castellari, o diretor de `Keoma`, com Franco Nero. O filme de guerra de Tarantino eh, na verdade, um spaghetti western ah sombra dos pequenos mestres do genero, Leone excetuado (talvez por ser considerado o `grande` mestre). Alem de Castellari, Tarantino utiliza a musica de `Um Dolar Furado`, com Giuliano Gemma, alias, Montgomery Wood. O filme conta a historia desse grupo selvagem, integrado por judeus-americanos, que leva adiante a missaoh suicida dos `Doze Condenados` de Robert Aldrich. Brad Pitt e seus amigos saoh especialistas em matar nazistas. Seu objetivo eh `escalpelar` o maior numero possivel dos `boches`. O climax do filme eh a pre-estreia, em Paris, desse filme que o proprio fuhrer considera a obra-prima da propaganda nazista, sobre um atirador solitario (um sniper) que mata soldados da resistencia para provar a superipridade do Reich. O plano de todo o mundo – de Pitt, da garota judia francesa que, na abertura, sobrevive ao massacre de sua familia – eh explodir o cinema na tal estreia, com o fuhrer dentro. Como vi o filme na segunda sala, e lah a sessaoh comecou tarde, nao pude ir a coletiva, mas isso naoh eh grave, pois devo entrevistar Tarantino na sexta. Do que vi pelo circuito interno de TV, fizeram-lhe as perguntas de praxe, uma delas interessante porque alguem quis saber se o diretor conseguia ter algum tipo de simpatia por algum de seus nazistas. Ele respondeu que sim, colocando-se na perspectiva de `Deus`, que, como criador, compreende todas as suas criaturas. Naoh vi ninguem perguntar a Tarantino o que mais me interessou. O cinema, dentero do filme, realmente explode e o que desencadeia a destruicaoh eh a pelicula, o celuloide, que, como voces sabem, eh inflamavel. A metafora naoh pode ser mais clara. O cinema morreu, a pelicula eh passado – e a maioria das projecoes estah sendo aqui em digital. Pensemos conjuntamente. Tarantino fez uma revolucaoh na Croisette, em 1995, com `Pulp Fiction`. Em 2000, Lars Von Trier fez outra com `Dancando no Escuro`, que impos ao mundo as novas tecnologias. Tarantino, isso eh, `Deus` vem agora decretar que o cinema estah morto. Estou falando no suporte, porque as novas tecnologias criam novas estruturas, novas formas de narrar e exibir e o cinema dele eh mais `espetacular` do que nunca. Leone parodiava? Tarantino faz a parodia da parodia. O inicio eh maravilhoso, mas, depois, quando o conceito fica claro, confesso que me cansa. Entendo, de qualquer maneira, o fascinio, dos jovens pelo diretor. Estah havendo uma batalha decisiva aqui em Cannes. A discussaoh sobre o `cinema` que comecou em 2000 pode estar acabando agora. Vamos ver qual a resposta que nos darah o juri presidido por Isabelle Huppert.