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Cannes (8)/Emendar Godard

Luiz Carlos Merten

11 Maio 2018 | 07h22

CANNES – Para ver Los Silencios, faltei à sessão da competição, que vou recuperar daqui a pouco. Cheguei de volta ao hotel com um amigo espanhol que me relatou maravilhas sobre Guerra Fria, do polonês Pawel Pawlikowski, autor de Ida. E, agora, por uma questão de horário, vou praticamente emendar o Pawel com Jean-Luc Godard, O Livro de Imagem. Ontem à noite, durante a sessão oficial de Leto, a poltrona destinada ao diretor Kirill Serebrennikov, no Palais, ficou vaga. E pela manhã, quando chedguei ao Palais Croisette para ver Los Silencios, a tela era ocupada por um protesto da Societé des Réalizateus contra Vladimir Putin, empossado para mais um mandato de seis anos como presidente da Rússia – até 2024. Enquanto isso, seus opositores conhecem o inferno no sistema autocrático e represssivo que substituiu o comunismo no país. Espero muito ser surpreendido e maravilhado por Guerra Fria, Zimna Wojna. Por enquanto, continuo em êxtase com Leto. O filme conta a história de um triângulo. Natacha, a esplendorosa Irina Starshenbaum, pede permissão ao marido roqueiro, Mike, para beijar o novo integrante da banda, um japonês sedutor chamado Viktor. Estão os dois na cama, Viktor e ela. Serebrennikov corta e só retoma a cena muito mais tarde. Seus personagens são jovens, libertários na cena musical de Leningrado, nos anos 1980. O mundo está mudando, mas a grandeza desses personagens é fordiana. Por conta das comemorações dos 50 anos de Maio de 68, o ano que não termina nunca, todas as publicações que circulam no festival (Le Film Français, Écran, The Hollywood Reporter, Gala, etc) têm se voltado para aqueles dez dias míticos. Entre a abertura, no dia 10 de maio, e o encerramento precipitado no dia 19, Cannes, 68, foi marcado pelo caos. Revolucionário do cinema, Jean-Luc Godard foi guerreiro na batalha pela paralisação. Agora, 50 anos mais tarde, segue na ativa, e competindo pela Palma.